Eu boto fé na resistência comandada por mulher 

Fernando Rosa

A Conferência Nacional das Mulheres, em Brasília, nesta terça-feira, 10 de maio, confirmou duas situações: os golpistas subestimaram Dilma e as mulheres são a força-motriz da resistência ao golpe. Talvez tenha sido o evento mais vigoroso de todos já realizados nos últimos meses de luta social para barrar o golpe de estado.

Dilma está certa quando diz que o golpe é contra o país, contra os programas sociais, mas também contra as mulheres brasileiras. As mulheres entenderam isso e foram às ruas do país, desde as primeiras mobilizações de resistência ao golpe. Alguém mais atento já percebeu que “a voz” das manifestações é acentuadamente feminina.

São várias as razões que determinaram essa realidade. Desde o fato de serem as mulheres as “proprietárias” do cartão do Bolsa Família e da chave do Minha Casa Minha Vida. Até as inúmeras conquistas de gênero, por meio de políticas afirmativas e contra a violência. A Lei Maria da Penha talvez sintetize a nova, mas ainda insuficiente, realidade feminina.

A percepção de que uma presidenta está sendo desqualificada também contribuiu para isso. Se a presidência fosse ocupada por um homem, não haveria tanto desrespeito diário. Aos argumentos fraudulentos do golpe, políticos desqualificados e a mídia golpista agregam ataques à figura da mulher presidenta. A desconstrução da autoridade, por ser mulher, é parte do script golpista.

Mas Dilma reagiu a isso e, quando muitos achavam que ela “arregaria”, com a renúncia, ao contrário, impôs uma profunda derrota aos golpistas. Com sua resistência, e persistência, em boa parte, segundo ela por ser mulher, Dilma marcou os golpistas na paleta. Hoje, o Brasil e o mundo sabem que o “impeachment” é uma fraude, que na verdade se trata de um golpe.

Para quem esqueceu, vale lembrar a peregrinação de Dilma por vários países do mundo, em 2015, buscando abrir novos negócios para o país. Da reunião com Obama, com os chefes do BRICS, passando pela atração de investimentos da China, da Alemanha, até o encontro com os países do Mercosul. Enquanto isso, enfrentava a sabotagem interna e externa, que não a deixou governar e paralisou o país.

Ao mesmo tempo, internamente, de forma objetiva, construiu uma profunda aliança anti-golpista com a maioria dos setores e organizações populares. Também deixou lacradas as principais portas das políticas e dos programas sociais que os assaltantes do poder pretendem arrombar. Como toda mulher, a resistência não ficou apenas na conversa.

Quem esperava outra postura de Dilma, não conhece a sua história, seu passado de lutas. Façam as críticas que quiserem a ela, mas nesse momento poucos são os que se igualam em firmeza e determinação no enfrentamento aberto aos golpistas. Não subestimem os riscos, as ameaças, menos ainda o esforço físico. Hoje, ela disse que “não está cansada de lutar, mas de gente desleal e traiçoeira”.

Aos que continuam reclamando de sua “falta de habilidade” para negociar, ou sua pouca “capacidade discursiva”, vale uma advertência. Antes de criticá-la, deveriam fazer uma autocrítica de suas próprias insuficiências, ou quem sabe negligências, políticas. A maioria embarcou nas manifestações – já golpistas! – de 2013, ninguém advertiu sobre o caráter geopolítico do golpe ou alertou seriamente para o republicanismo ingênuo.

Os golpistas, em sua maioria homens (e algumas ressentidas, é verdade), portanto, podem afastá-la para o julgamento, que espera-se não seja sumário. Diante de três mil mulheres, Dilma afirmou alto e bom som que seguirá na luta, nas ruas – que basta chamá-la. É o que se esperava dela, por ser mulher, por conhecer a história e por ter compromisso com o país e o povo.

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Brasília – DF, 10/05/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de abertura da 4ª Conferência Nacional de Política para as Mulheres. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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