Um golpe sem futuro

Fernando Rosa

O golpe de estado “interino” deu mais um passo nesta quinta-feira com o afastamento da presidenta Dilma e posse do novo presidente em exercício, Michel Temer. A total ausência de “comemoração”, antes de comedimento, explicitou a cínica cumplicidade com a situação que resultou naquele momento. Aquele plenário sombrio representou apenas um habeas corpus coletivo de velhos políticos reunidos por um golpe de estado que pretende marginalizar a sociedade.

A ausência total de mulheres – de negros, da juventude – no ministério interino é a mais escandalosa demonstração do atraso social, do retrocesso democrático e do rancor ideológico dos golpistas. Mas outras evidências também ficaram expostas naquele plenário composto majoritariamente por homens, brancos, de ternos marrons, em sua maioria velhos. Não havia vida ali, nem mulheres, nem juventude, nem negros – nem empresários, e nem mesmo, registre-se, aqueles que os apoiaram nas ruas, com suas bandeiras verde-amarelas, deram as caras.

Menos pelo discurso oficial, e mais pela postura de setores da mídia e de outros porta-vozes, a exclusão social ameaça chegar para além da economia e dos direitos sociais e trabalhistas. Em especial a Rede Globo e o ministro interino da Justiça deram o tom do discurso fascista, traduzido em parte no slogan – mal utilizado – do governo interino, com cara de publicidade global. Uma chamada na Folha de S. Paulo desta sexta-feira, 13, sintetiza o espírito belicoso da violência interina: “Ministro da Justiça combaterá ação violenta de movimentos de esquerda”.

A ameaça é a confissão não apenas do caráter antidemocrático dos próceres interinos, mas um reconhecimento antecipado da impopularidade das suas propostas. Tentar retroceder a 1964 é desconhecer a resistência de mais de vinte anos contra a ditadura, a campanha das “Diretas Já”, os profundos avanços democráticos e sociais do Brasil e o enorme isolamento do golpe na mídia internacional e junto a maioria dos governos. O levante da sociedade civil organizada nos últimos meses, em TODOS os setores da vida nacional, também desautoriza o arroubo ditatorial – o Brasil não é a Avenida Paulista.

Os golpistas não tem futuro, por tratar-se de um projeto de destruição nacional, voltado para atender restritos interesses políticos e de classe, especialmente da burguesia paulista. Não estamos em 1964, quando o capitalismo americano tinha vigor e capacidade de investimento, o que fez no Brasil a partir do golpe civil-militar. Os militares brasileiros, por sua vez, exceto eventuais aventureiros, continuam perfilados e fiéis a um espírito de defesa e construção nacional, distante da visão mesquinha, vende-pátria e saqueadora do projeto em curso.

O golpe atende imediatamente aos interesses do capital financeiro internacional e das petroleiras americanas insatisfeitas com o regime de partilha e de conteúdo nacional. Por isso, a Operação Lava Jato direcionada para atacar e destruir as empreiteiras nacionais e eliminar a rede de produção e negócios agregados. A urgência em assaltar a Petrobras e o Pré-Sal também explica a presença do peessedebista José Serra na função de Ministro das Relações Exteriores – ele é o autor da lei que revoga o regime de partilha na exploração do petróleo nacional.

Aliás, o ministério interino nasce desprovido de qualquer sentido estratégico, fato mais do que evidente na presença de um pastor na função de Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Em lugar de “notáveis”, apresentou-se um ministério de acomodação de interesses políticos, composto por velhas raposas, movido apenas pela urgência de acertar as faturas com os eleitores do golpe. Em tempo muito curto, não apenas setores populares ainda confusos, mas também segmentos empresariais, e até mesmo quem foi às ruas em favor do golpe se dará conta do engodo.

Portanto, apesar das ameaças, a sociedade continua lutando e seguirá nas ruas contra os golpistas e sua política lesa-pátria e antipopular. Ao enfrentar os golpistas, a presidente Dilma transformou-se em um símbolo da resistência, o que crescerá diante da “descoberta” de quem são e o que pretendem os usurpadores. Falta apenas conformar uma sólida FRENTE POPULAR, DEMOCRÁTICA E PATRIÓTICA para organizar o povo, fortalecer a luta e convocar uma CONSTITUINTE EXCLUSIVA, com financiamento público, para reorganizar o Brasil e impedir o sequestro do nosso futuro.

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