Atacar a cultura é atacar a identidade nacional

Fernando Rosa

A revolta nacional no campo cultural não é apenas contra a extinção do Ministério da Cultura. O que está em jogo são os fundamentos, os princípios, os valores mais caros da Nação. Por isso, o golpe contra a cultura calou tão fundo nos artistas, na juventude e nos intelectuais no exterior. Atacar a cultura é atacar a construção da identidade nacional em seu coração.

O golpe é para submeter a economia ao sistema financeiro. Para desnacionalizar as riquezas, em especial o Pré-Sal. Para impedir o Brasil de manter o atual protagonismo multilateral do país. É para isolar o Brasil, alinhar aos EUA, afastar o país do BRICS, da Unasul e do Mercosul. É para interromper o processo de superação da vira-latismo secular imposto pelas elites. É para empurrar o povo de volta para a senzala.

Esse processo não é de hoje. Faz anos, por exemplo, que a música americana impera nas rádios nacionais. Que o lixo dos axés e sertanejos “universitários” reinam nas televisões. A cultura nacional vem sendo sufocada, apesar da resistência das redes sociais. A cena musical independente dos anos dois mil foi um desses “pontos” de enfrentamento, no campo musical. O cinema nacional também cresceu, produziu e apareceu, com apoio de uma política nacional.

A música, o cinema, a literatura e todas artes são o principal cartão de apresentação de um país no mundo. A música, em nosso caso especial, fez do povo brasileiro um dos mais queridos e respeitados do mundo. Os ritmos regionais, o samba, a Bossa Nova, o Tropicalismo, a Jovem Guarda nos identificam culturalmente. Desde Donga, Pixinguinha, Villa Lobos, Cartola, João Gilberto, Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto Carlos, Os Mutantes e tantos outros, construímos, talvez, a música mais rica do mundo.

Os golpistas que tentam tomar posse na marra, se perguntados, não devem passar de ouvintes de sertanejos genéricos, quando muito. Assim como não tem compromisso com o país, com o povo, estão se lixando para “essa coisa de viados”, que é a cultura para eles – como ironizou a atriz Fernanda Montenegro. Então, destruir a cultura nacional é parte de seu DNA, do aprendizado que trazem de casa, das suas histórias de vidas miseráveis. Para eles, basta ir à Disney uma vez por ano.

A reação solidária e carinhosa do público no Festival de Cannes, nessa semana, deu a dimensão da importância da nossa cultura, do respeito que os demais povos tem pelo Brasil e por nossa gente. Foram mais de cinco minutos de aplausos de pé para o filme, para o cinema, para a cultura, para os atores, diretores e produtores. Mas também para a democracia, bandeira que eles levantaram corajosamente em protesto contra o golpe. A cultura resistiu à ditadura de 64 e não dará sossego aos golpistas atuais.

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