O exemplo da Turquia

Fernando Rosa

“O povo está cansado de ir às ruas” – é frase que tem se repetido entre lideranças sociais e políticas. Uma constatação que, espera-se, seja desmentida por amplas manifestações no próximo dia 31 de julho. Essa situação, no entanto, precisa ser politicamente decifrada para evitar mau juízo do povo brasileiro. As novas práticas de rede e de horizontalidade nas relações sociais e políticas, por mais que se aposte nisso, não substituem as lideranças.

Vejam o exemplo da Turquia. Neste final de semana, milhares de turcos foram às ruas. Nas palavras-de-ordem: “Sem golpes” e “Estamos ao lado da República e da democracia”, entre outras. Organizado pelo partido de oposição – o Partido Republicano do Povo, o ato reuniu prós e contras ao atual presidente Erdogan. “Foi uma tentativa de golpe contra nossa democracia, nosso Estado secular e social, governado por leis”, disse o chefe do partido, Kemal Kilicdaroglu, em seu discurso.

Ou seja, como diz um amigo, ironicamente, “alguém falou em nome da birosca”, levantou a voz de comando em defesa da Nação. E mais, não apenas denunciou o golpe, mas identificou a origem dos ataques ao país. O ministro do Trabalho foi mais direto, acusando os Estados Unidos, enquanto o presidente Erdogan sinalizou por meio da cobrança da extradição do clérigo Fetullah Gullen, auto-exilado nos Estados Unidos. A enérgica convocação para defender a Nação, portanto, mobilizou todos os turcos.

Aqui no Brasil, temos uma visão rebaixada, talvez ingênua, da ideia de Nação. Mesmo entre as lideranças políticas, as guerras geopolíticas são vistas como “teoria da conspiração”. Já vivemos duas guerras mundias, um golpe militar que redundou em 20 anos de ditadura, mas parece que aprendemos pouco com as experiências. A esquerda em especial tem enorme dificuldade de pensar o Brasil além da defesa desse ou daquele setor social. Por isso, nos falta até hoje um amplo projeto de Nação.

Em entrevista ao jornal Página 12, da Argentina, a presidente Dilma avançou para identificar possíveis beneficiários e, portanto, interessados no golpe de estado. “A favor do golpe podem estar aqueles que não querem a competição no mercado internacional das grandes empresas de construção brasileiras”, entre elas a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. As empresas brasileiras de infraestrutura construíram o porto de Mariel, o metrô de Caracas e a reforma de estradas e portos dentro dos Estados Unidos, por exemplo.

Além dos interesses, as evidências da participação americana, direta ou indiretamente, por variadas formas, pululam diariamente nas páginas da mídia golpista. Afastar o Brasil do BRICS é do interesse dos Estados Unidos, dentro da sua política de impedir o desenvolvimento dos países emergentes. A aliança Brasil-Russia-Índia-China-África do Sul não interessa ao imperialismo em decadência, com sua econômia fragilizada e capturada pelo sistema financeiro.

Já passamos por isso em 1964, mas o compromisso nacionalista das Forças Armadas impediu a submissão exclusiva aos interesses americanos. Ao restringir a denúncia do golpe às questões democráticas, sem identificar autores e responsáveis além das disputas internas, também limitamos o potencial de mobilização. Mais do que isso, não agregamos as forças necessárias para enfrentar o inimigo verdadeiro, o beneficiário final do golpe. Hoje, o golpe não tem intermediários.

turquia-manif

Praça Taksim, em Istambul
MURAD SEZER/REUTERS
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