Serra renega o Brasil

Fernando Rosa

Em meados dos anos setenta, o general Ernesto Geisel, então presidente do Brasil, inaugurou uma nova fase da política externa brasileira em relação aos Estados Unidos. Assinou o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, que resultou nas usinas Angra I e II, provocando grande tensão com os ainda parceiros da “doutrina de segurança nacional”. Também abriu relações diplomáticas e comerciais com a República Popular da China, desafiando o núcleo duro dos militares, então comandado pelo general Silvio Frota.

Na época, questionado sobre a proposta de aproximar-se da China, “porque era comunista”, Geisel foi taxativo na defesa de uma política de multilateralidade nas relações internacionais, segundo conta o livro “O caso dos nove chineses”. “Se vocês querem ser coerentes, então, vamos cortar relações com a Rússia também e vamos nos isolar, vamos virar uma colônia dos Estados Unidos”, respondeu ele, mantendo a sua posição. E desde então, a relação entre Brasil e China cresceu até chegar aos níveis atuais – de maior parceiro comercial do país.

Passados quarenta anos, nesta semana os golpistas interinos decidiram dar mais um passo para revogar a política externa brasileira, desde Geisel, e retornar ao alinhamento submisso aos Estados Unidos. A declaração de imprensa do ministro de Relações Exteriores José Serra com o Secretário de Estado dos EUA é uma afronta à soberania nacional. Talvez seja a peça mais acovardada de um representante de Estado diante de outro representante de Estado, fora de épocas de guerra – vejam o vídeo abaixo.

A presença do Secretário de Estado John Kerry, por si só já deu a dimensão do tipo de relação que os Estados Unidos têm para oferecer ao Brasil, muito distante de investimentos econômicos. O único interesse americano no Brasil é militar, é garantir a instalação de suas bases militares em território nacional, como já fez na Argentina. É também fazer do Brasil um parceiro de sua política mundial belicista de “combate ao terror”, para transformar nossos vizinhos em inimigos, traficantes e “bases” do EI.

Na declaração à imprensa, o ministro José Serra deixou claro a sua cumplicidade com a estratégia geopolítica norte-americana para o continente sul-americano. Alinhando-se ao discurso hipócrita do Império, Serra destacou a parceria para “defender a democracia e os direitos humanos” no Brasil e na região. As cenas explicitas de “viralatice” chegaram ao ponto do ministro José Serra “abrir” infantilmente seu “voto” a senhora Hillary Clinton, em meio ao riso amarelo de Kerry.

Isso, enquanto segue em curso no país um golpe de estado, em boa parte operado por ele e pelo seu partido, o PSDB, derrotado nas últimas eleições realizadas no país. Também ao mesmo tempo em que cidadãos são presos e expulsos dos estádios apenas por exercerem seu direito democrático de discordar dos golpistas. Ou que, um juiz praticamente filiado ao PSDB, pede a cassação do registro de um partido, o PT, situação registrada anteriormente apenas em tempos de ditaduras.

Aliás, o alinhamento suicida e vira-lata aos Estados Unidos, pelo visto, é o que resta aos golpistas, tamanho seu isolamento mundial, ainda mais evidente depois da abertura das Olimpíadas. A Olimpíada reúne 206 nações, mas apenas 18 chefes de Estado e de governo compareceram à abertura, segundo revelou o Estadão, que não teve como esconder o fiasco diplomático. A Copa do Mundo, em 2014, para comparar, menor e com muitos menos interesse oficial, contou com representantes de 32 países.

O grande gesto diplomático, ao contrário da rendição “explícita” da declaração à imprensa, foi dada pelos atletas chineses, na passarela das delegações, longe do oportunismo politiqueiro de Serra e seu “amigo” Kerry. Segurando as duas bandeiras – da China e do Brasil – fizeram mais do que apenas “tentar” ganhar a simpatia da torcida brasileira, como disseram os estúpidos comentaristas das televisões. Trataram as relações dos países com a dimensão de amizade, cordialidade e respeito entre povos.

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