John Kerry, o Thomas C. Mann de 2016

Fernando Rosa

Em 31 de março de 1964, o secretário de Estado adjunto para a América Latina, Thomas C. Mann, selou o apoio dos EUA ao golpe ao receber ligação do presidente Lyndon Johnson dando sinal verde para apoiar os golpistas. O golpe já estava em andamento, e os Estados Unidos mandavam dizer que a “ajuda” ao golpistas poderia ser financeira, material e, caso houvesse resistência, militar. Tais fatos estão fartamente relatados no livro “O caso dos nove chineses”, lançado recentemente, envolvendo a prisão de jornalistas e funcionários do governo da China, então residentes no Brasil.

Em 5 de agosto de 2016, o secretário de Estado titular, John Kerry, repetiu a cena histórica ao também selar o apoio dos EUA ao golpe ao encontrar-se oficial e formalmente com o ministro-interino de Relações Exteriores, José Serra – no mesmo Rio de Janeiro. O golpe está em curso e o governo do presidente Obama, com seu gesto público, legitimou uma situação que o mundo já definiu como um ataque à democracia, no principal país da América Latina. O encontro foi registrado pela mídia brasileira, sem questionamentos, e pela mídia internacional, que destacou o fato e dimensionou sua importância histórica.

Os “tanques do golpe” foram às ruas definitivamente nesse dia e, a partir de então, os golpistas, incluindo sua mídia, avançaram com arrogância e desenvoltura no terreno já ocupado e controlado do Senado Federal. Os sinais do “aval americano” são por demais evidentes, do que são exemplos as manifestações críticas do ex-candidato Bernie Sanders e de 43 parlamentares republicanos, em carta ao governo. “Os Estados Unidos não podem permanecer em silêncio enquanto as instituições democráticas de um de nossos mais importantes aliados são atacadas”, questionou Bernie Sanders.

Em artigo, Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisa para Economia e Política em Washington, D.C., e presidente do Just Foreign Policy, estranhou o comportamento dos políticos norte-americanos. Segundo ele, é “extremamente raro ver este tipo de questionamento sobre a política do governo dos Estados Unidos por membros do Congresso do mesmo partido, especialmente sobre um país tão grande e importante como o Brasil”. “Talvez eles tenham tomado tal decisão porque sabem que a administração de Obama estaria apoiando o impeachment”, concluiu.

Ainda de acordo com Weisbrot, o encontro de John Kerry com o ministro-interino, José Serra, pode ser sido “uma resposta não-verbal” aos questionamentos dos seus conterrâneos, e aliados políticos. “Ele (Kerry) poderia facilmente ter evitado o encontro com Serra, como evitou com Temer. Isso não seria um problema diplomático ou de protocolo”, lembrou Weisbrot. “Ao reunir-se com Serra, e ao emitir declarações conjuntas sobre uma série de questões após essa reunião, Kerry mais uma vez mostra o apoio a um governo de legitimidade questionável”.

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