A negação do Brasil e a soberania do Uruguai

Fernando Rosa

“No nos gustó mucho que el canciller (José) Serra viniera a Uruguay a decirnos — lo hizo público, por eso lo digo — que venían con la pretensión de que se suspendiera el traspaso y que, además, si se suspendía, nos iban a llevar en sus negociaciones con otros países, como queriendo comprar el voto de Uruguay”. A declaração é do chanceler do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, ao Congresso Nacional, citada em matéria pelo jornal El Pais, a respeito da chantagem dos golpistas-interinos, com FHC a tiracolo, no último dia 5 de julho, em reunião no Uruguai.  O tema da controvérsia é a tentativa do governo-interino do Brasil de impedir a Venezuela de assumir a presidência do Mercosul, sucedendo o Uruguai, seguindo as regras que regem o exercício alternado dos países.

Em coletiva de imprensa, em Montevidéu, Serra disse que o Brasil faria “uma grande ofensiva comercial na África e no Irã”, e que poderia “levar” o Uruguai – não todo o Mercosul – como “sócio” nos negócios, desde que, em troca disso, o Uruguai não transferisse a presidência do Mercosul para a Venezuela. Segundo o chanceler uruguaio, Brasil e Paraguai utilizam argumentos “eminentemente políticos” para “fazer bulling na presidência da Venezuela”. “Lo digo con todas las letras. Se saltean lo jurídico, que es este libro que estoy mostrando, que contiene el cuerpo normativo, y aduciendo razones que no están aquí, quieren eludir, erosionar, hacer bullying a la presidencia de Venezuela. Esa es la pura verdad”, afirmou o chanceler.

Os líderes do PSDB, de José Serra, Fernando Henrique a Aécio Neves, todos, com o contumaz discurso de “fechar fronteiras”, sempre trataram os vizinhos do Brasil como traficantes, contrabandistas e bandidos, que deveriam “tirar os sapatos” nas alfândegas das respectivas divisas. Com a possibilidade de instalarem o golpe de estado no Brasil, já pensam que podem exercer o poder sub-imperial na América Latina, realizando os servicinhos sujos para os Estados Unidos, como atacar a Venezuela, sem qualquer razão do ponto de vista nacional. Os únicos interessados nesse tipo de iniciativa são os Estados Unidos, que tem olhos bem gordos para as reservas petrolíferas do país, uma das maiores do mundo.

Ao contrário da visão puramente ideológica e serviçal dos golpistas, a Venezuela é um grande parceiro comercial do Brasil, com um volume de negócios envolvendo diversos setores e empresas brasileiras em contratos que, segundo a FGV, em 2104 atingiam cerca de U$ 20 bilhões. Nesse mesmo ano, quando o Brasil enfrentou seu primeiro déficit do século na balança comercial, obtivemos um superavit de US$ 3,45 bilhões no comércio com a Venezuela. Apesar da crise interna, dos constantes ataques à economia do país e da queda do preço internacional do barril de petróleo, em 2015 o movimento do comércio entre os dois países foi de US$ 3,7 bilhões, com uma saldo favorável ao Brasil de US$ 2,3 bilhões.

O que os golpistas não esperavam foi a reação digna, soberana e de respeito às leis internacionais por parte das autoridades uruguaias, do Executivo e do Parlamento, que honraram a histórica tradição democrática do país e do povo do Prata. A arrogância imperial e desrespeitosa do ministro-interino das Relações Exteriores, José Serra, segundo informou o chanceler Novoa ao Parlamento do país, “molestó mucho” ao presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez.  Em resposta, também segundo o chanceler, “el presidente se lo dijo clara y rotundamente: Uruguay va a cumplir con la normativa y va a llamar al cambio de la presidencia del Mercosur”.

O episódio vem somar-se ao desastre internacional do governo interino, o que não poderia ser diferente, em se tratando de um poder ilegítimo, fruto de um golpe de estado. Por um lado, a mídia internacional carimbou na testa dos interinos a pecha de golpistas, enquanto, por outro, a minguada presença de Chefes de Estado na abertura das Olimpíadas impôs uma profunda derrota diplomática ao presidente-interino. Na verdade, submissos aos Estados Unidos, os golpistas renegam a história das relações diplomáticas soberanas, multilaterais e independentes construídas no Brasil desde os anos setenta, e na América Latina mais recentemente.

Matéria do jornal El Pais.

mujica e tabaré

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