Afastar Cunha é rito de passagem

Fernando Rosa

A cassação do deputado Eduardo Cunha por uma ampla maioria de votos cumpre o roteiro do golpe e expõe ainda mais o comando golpista no país. Aparentemente metralhado pelas costas, Cunha parece não ter sido mais do que apenas um instrumento para atirar na democracia e afastar a presidenta Dilma. É possível, mas improvável, que a traição coletiva tenha sido provocada por medo da pressão da mídia e das eleições municipais em curso.

O resultado evidencia a existência de um acordo prévio entre os golpistas, que pode ou não incluir o próprio Eduardo Cunha – para salvar a sua fortuna no exterior. A ampla maioria de votos pela cassação mostra a decisão dos golpistas de se livrarem de Cunha, de uma forma planejada e organizada. Acusar o PT de vingança por ter aberto o impeachment,por parte de Cunha, foi tão surreal quanto sua frustrada tentativa de chorar na tribuna da Câmara.

A cassação de Eduardo Cunha, na verdade, é a ante-sala da degola de Michel Temer, tão logo vire o ano e a Legislação imponha o Colégio Eleitoral para “eleger” um novo presidente. Talvez nem mesmo a sua total submissão aos golpistas, ao seu programa entreguista e anti-popular, salve a sua vida. “Nem Michel eles queriam, eles querem, a oposição. Aceitam o parlamentarismo”, já disse Sarney naquelas famosas e engavetadas conversas gravadas por Sérgio Machado.

Então, queriam, e continuam apostando no parlamentarismo, com entronização de Meirelles ou mesmo de Serra via eleição indireta no primeiro trimestre de 2017. A votação de ontem demonstrou que eles têm força para isso e, mais ainda, para afastar do calendário as eleições de 2018, quem sabe para 2022, ou depois. É disso que sempre tratou o golpe, com seu sinuoso trajeto, mas sem perder o objetivo estratégico, que é afastar o povo das decisões.

O imperialismo americano não tem a menor condição de tentar impor seu programa de destruição pela via eleitoral – perderam quatro eleições consecutivas. Portanto, apostaram no PSDB, na Operação Lava Jato e seu aparato judicial e policial e na mídia golpista, em especial Folha, Globo, Estadão, Veja e IstoÉ para assaltar o poder. O PMDB é o parceiro chantageado pelos donos do golpe, dividido entre a salvação de algumas de suas lideranças e a morte política definitiva do partido no país inteiro.

Nesse terreno, crescem as mobilização populares ainda timidamente entusiasmadas com a bandeira das Diretas Já, que podem servir para polarizar com o colégio eleitoral dos golpistas ali adiante. Mas, cada vez mais, é preciso ampliar a denúncia do caráter mais profundo do golpe de Estado no Brasil. Não é coisa do Cunha, dos ladrões em busca de anistia, mas do PSDB e, mais do que isso, dos seus patrões, os Estados Unidos, para destruir a Nação brasileira e afastar o Brasil do centro da geopolítica mundial.

A cada manifestação fica mais evidente a urgência em ampliar verdadeiramente a frente em defesa da Nação, que deve incluir a todos os democratas, nacionalistas e patriotas, com um Projeto Nacional claro. É  irresponsável o discurso em defesa de uma “frente” que de antemão discrimina lideranças que já provaram de que lado estão, como Kátia Abreu, por exemplo. Ou que não coloque em seu horizonte próximo atrair as Forças Armadas para o centro da luta para enfrentar o verdadeiro, violento e criminoso inimigo do Brasil.

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Presidente da República em Exercício, Michel Temer, Ministro das Relações Exteriores, José Serra, Governador do Rio, Luiz Fernando Pezão e o Prefeito do Rio, Eduardo Paes recebem o Secretário de Estado John Kerry durante recepção aos chefes de estado e de governo, por ocasião dos Jogos Olímpicos Rio 2016. (Rio de Janeiro – RJ, 05/08/2016). Foto: Beto Barata/PR


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