“Homeland” versão Brazil

Fernando Rosa

Um cenário cinematográfico de filme “B” sobre atividades da CIA – tipo Homeland – foi armado no domingo passado, 4 de setembro, em São Paulo. Uma espécie de “Riocentro” 2.0 articulado por setores tão obscuros quanto aqueles dos anos oitenta. Desta vez, os golpistas levaram suas ações até o final, mas foram derrotados pelo movimento de massas.

O roteiro da armação ficou explícito a partir das informações da própria mídia, golpista ou não. Primeiro, o governo provocou e desafiou debochadamente o movimento de massas. Depois, proibiram a manifestação na Avenida Paulista e colocaram o Exército no local. O que não funcionou, pela habilidade das lideranças populares que negociaram novo ponto de concentração e horário.

Já durante a manifestação, apagaram a luz do Túnel Rebouças, durante a passagem da marcha, sabe-se lá com qual objetivo. Durante a dispersão da manifestação, promoveram uma bombardeio às pessoas. E, na mesma hora, incendiaram – “agentes do PCC? – e tentaram explodir um carro dentro de um pátio de casa perto da residência de Temer em São Paulo.

O mais grave do enredo, no entanto, só veio a público durante a semana, por meio de matéria, claro, do jornal estrangeiro El Pais, da Espanha. O grupo de jovens presos – que seriam chamados de “terroristas” – no domingo tinha sido alvo de uma armadilha dos golpistas. Mais exatamente da infiltração de um oficial do Exército, William Pina Botelho, que induziu o grupo a um local, onde foram presos.

A articulação dos golpistas imaginava que a manifestação teria o mesmo perfil das ocorridas durante a semana – pequena, isolada e violenta. Aliás, marcadas pela ação de provocadores já plantados para promover desordem. Assim foi em São Paulo e em Porto Alegre, em especial. As imagens dos “black blocs”, na quarta-feira, tentando virar uma viatura policial, foram amplamente divulgadas pela Globo News.

Diante do fracasso da operação golpista, passados quinze dias, muita gente ainda deve explicação para a sociedade. Quem articulou as pessoas e instituições para promover as ações? Qual o papel do ministro da Justiça Alexandre Moraes no processo? E do Gabinete de Segurança Institucional, do general Sérgio Etchegoyen? O Comando do Exército sabia da participação de seu subordinado na operação?

O fato do oficial do Exército não ter sido preso com os jovens, ou pior, ter sido solto após a ação, sugere uma combinação prévia entre ele, ou seus superiores, com a Polícia Militar. Ou, ainda mais escandaloso, uma ação acertada entre o Ministério da Justiça, o Gabinete de Segurança Institucional e a PM de São Paulo. O que transforma as instituições públicas e de governo em perigosas e paralelas plataformas de “terrorismo de Estado”.

William Botelho, o oficial do Exército infiltrado entre os jovens não é um soldado qualquer. É bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras e mestre em Operações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. É autor de artigos sobre “A inteligência em apoio às operações no ambiente terrorista”. Está na ativa desde 1998.

O atentado do Riocentro, na noite de 30 de abril de 1981, no Rio de Janeiro, pretendia criminalizar organizações, políticos e artistas. As bombas seriam plantadas no local do show, pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo então capitão Wilson Dias Machado. O artefato, no entanto, explodiu antes da hora, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão Machado.

O novo e frustrado “Riocentro” desta vez explodiu no colo das autoridades que estão à frente do golpe. Mas também, novamente, flagrou a tentativa de envolver as FFAA em processos subterrâneos e criminosos. Entre todos os responsáveis, cabe principalmente às FFAA explicar a participação de seu oficial na operação criminosa. Ou ficar quieta e pagar pela associação ao crime.

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Atentado do Riocentro, em 1981.

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