O golpe transnacional

Tiago Pelegrini Macambira

O artigo, ou mais do que isso, o estudo que publicamos é uma importante contribuição para o debate sobre o caráter do Golpe de Estado em curso no Brasil. De autoria de Tiago Pelegrini Macambira, geógrafo e fotógrafo, traz informações fundamentais para compreender o processo em curso. Em falta no mercado editorial, o texto reúne dados, referência históricas e depoimentos de autoridades do universo da geopolítica moderna.

“O golpe, ou a desestabilização política, econômica e social que afeta o pais de alguns anos pra cá não é fruto única e exclusivamente de problemas ou contradições nacionais, tão pouco são fruto apenas da chamada crise financeira ou econômica mundial. Há sim uma ingerência no território brasileiro capitaneada pelos interesses do capital financeiro globalizado e empresas transnacionais com sede nos EUA e Europa principalmente”, diz Macambira no texto.

“Na última década o Brasil e a América do Sul tornaram-se importantes jogadores da política internacional. Aprofundamos as relações comerciais do Mercosul. Criamos a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) em 2008. Ampliamos as relações comerciais, políticas, e principalmente, culturais com a África (uma das principais matrizes da cultura e da população brasileira)”, continua ele, definindo a posição estratégica adquirida pelo país nos últimos anos. (Fernando Rosa)

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moro-fariseuAv. Paulista, março de 2016, Foto: Tiago Macambira.

O GOLPE TRANSNACIONAL

Tiago Pelegrini Macambira

“Todos os lugares são, à sua maneira, o mundo”
 Milton Santos

Portugal, século XIII. Seguindo o caminho do pôr do sol no oceano Atlântico, aquela nação, cujo nome deriva de Porto (Portus Cali), já sabia que o Sol indicava a direção para terras ainda virgens; para a expansão do capitalismo -talvez até fosse o paraíso perdido. Também sabiam os portugueses que muito provavelmente, contornando o continente africano, chegariam às Índias. Se conseguissem tal feito, criariam a primeira rota marítima entre a Europa e Ásia, sem a necessidade de enviar enormes comboios através das Rotas da Seda.

Mas esses feitos só seriam logística e economicamente viáveis caso existisse uma tecnologia capaz de transportar pessoas e mercadorias através dos oceanos de forma precisa, rápida e com alguma segurança. A caravela, que conseguiu a proeza de praticamente navegar contra o vento, foi a solução tecnológica que propiciou ao império português desbravar os oceanos do planeta.

Hoje, mais de 500 anos depois, outra tecnologia capaz de conquistar mais uma parcela inexplorada do planeta foi desenvolvida. Os autores dessa inovação também falam português, e de um jeito ou de outro são fruto da invenção da caravela. Se há 500 anos a madeira, a prata, o marfim, o ouro e a busca por territórios foram os propulsores para a criação humana da caravela, hoje é a energia em forma de petróleo e gás e a ampliação e manutenção de mercados que direcionam as inovações de tecnologias.

Criada por Getúlio Vargas em 03 de outubro de 1953, a Petrobras foi quem descobriu e desenvolveu a tecnologia capaz de abrir este novo front de exploração, comparável ao que os portugueses fizeram com a tecnologia de suas caravelas 5 séculos atrás. Na medida em que conseguiu explorar e extrair comercialmente petróleo há 6 ou 7 quilômetros abaixo da lâmina d’água, a Petrobras descortinou uma parte até então inacessível do planeta. Com isso o Brasil torna-se a única nação do mundo capaz de explorar uma parcela até então inacessível do leito oceânico -fato este que a grande mídia brasileira esconde, pois fere os interesses hegemônicos ultraliberais cuja ideologia se baseia no discurso da não intervenção estatal na economia (ou na intervenção segundo seus próprios interesses; vide a “estatização” de alguns bancos estadunidenses na crise de 2008) e não ultra exploração da mais-valia do trabalhador em benefício dos lucros estratosférico dos detentores dos meios de produção.

Mas afinal qual é a capacidade dessa tecnologia, até onde ela vai? E suas próximas gerações, conseguirá explorar o restante do leito oceânico? Seria exagero pensar que em breve teríamos em mãos a capacidade tecnológica de extrair petróleo e gás da metade da superfície do planeta ainda inexplorada pelo homem – 2/3 do planeta estão cobertos por água, apenas os fundos oceânicos em águas rasas estão sendo exploradas?

Certamente a tecnologia da Petrobras, que propiciou a descoberta das maiores bacias petrolíferas mundiais do século XXI, juntamente com o Pré-sal, é um dos principais alvos dos agentes hegemônicos mundiais. Além disso, nos últimos 14 anos o Brasil ganhou peso e importância no jogo geopolítico mundial, juntamente com o continente sul-americano. É membro fundador dos BRICS (grupo que reúne Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul) e do IBAS (grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul); exerce um papel importantíssimo em inúmeras negociações internacionais, como na rodada de Doha, por exemplo; encontra-se numa região pacífica em relação a outras regiões do mundo; possui as maiores reservas de terras agricultáveis do planeta; além das “infinitas” riquezas minerais presentes no subsolo brasileiro.

As ingerências no território brasileiro: colocar uns contra os outros

Uma vez que a coroa portuguesa estabelecesse os primeiros contatos com os habitantes da região, genericamente chamados de índios, hasteasse sua bandeira e tomasse posse do território onde atualmente se encontra o Brasil, outras nações europeias seguiriam pelo mesmo caminho.

Ultrapassado o instante amistoso entre portugueses e índios, o que se viu – e se vê até hoje- é um constante extermínio de nós índios brasileiros. Às vezes em nome de Deus, às vezes em nome do lucro, outras apenas em nome do terror. Quando não era possível a matança direta, portugueses, espanhóis e até os franceses disseminavam a discórdia entre diferentes etnias indígenas, identificavam possíveis rixas, diferenças culturais ou outras contradições internas e colocavam uns contra os outros. Dessa forma, ao dividi-los e enfraquecê-los, a dominação tornava-se mais fácil. Além disso, essa maneira de agir também propiciava convencer grupos indígenas a lutarem ao lado de seus algozes, ao  serem noticiados que outra nação europeia estava lutando junto a outros grupos indígenas.

Exemplo disso, foi o episódio conhecido como Confederação dos Tamoios, em que índios Tamoios foram convencidos pelos franceses a guerrear contra os portugueses. Guerra essa que não se desenvolveu devido a intervenção diplomática dos jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, culminando no acordo chamado Armistício de Iperoig.

Esse modo de agir tem sido atualizado a cada mudança de período histórico ou de império. Os ingleses, precursores da revolução industrial, passaram também a explorar as riquezas minerais e a mais-valia no território brasileiro quando se tornaram potência global. Dessa forma, as ingerências e a dominação sobre o nosso território passam a ser dirigidas por Londres, não mais por Lisboa ou Madrid àquela época.

Mais recentemente, já no séc. XX, os EUA passam a deter a hegemonia global – inicialmente dividida com a URSS, mas consolidada após a queda do muro de Berlim em 1989.

Hoje, as intenções de exercer a hegemonia, controle da economia e dos territórios são os mesmos, porém os meios pelos quais essas interações se realizam são mais sofisticados e diversificados. O que de fato torna-se novidade é a captura, o uso e o controle da informação em larga escala. Esse período da história, ou meio, é chamado pelo geógrafo Milton Santos de técnico-científico-informacional.

À época da chegada e tomada de posse do território brasileiro, os portugueses se utilizavam de uma técnica como forma de domínio dos territórios e de transformação da natureza. Durante a hegemonia britânica, a ciência passa a ser incorporada em larga escala dando origem ao meio técnico-científico, definido por Milton Santos (1989, pág. 77)  como o  “momento histórico no qual a construção ou reconstrução do espaço se dará com um conteúdo de ciência e técnica“. Dessa forma, as relações do homem com a natureza ou com outros territórios, se alteram na medida em que a técnica – entendida aqui como mediadora entre homens e a natureza – “converteu-se no objeto de uma elaboração científica sofisticada que acabou por subverter as relações do homem com o meio, do homem com o homem, do homem com as coisas, bem como as relações das classes sociais entre si e as relações entre as nações”. (Santos, M. 1997, pág. 16). Depois, com a disseminação das redes de comunicação pelos territórios através de empresas transnacionais e Estados nacionais, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a informação passa a ser incorporada às técnicas:

Neste período, os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais, já que, graças à extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização, eles já surgem como informação; e, na verdade, a energia principal de seu funcionamento é também a informação. Já hoje, quando nos referimos às manifestações geográficas decorrentes dos novos progressos, não é mais de meio técnico que se trata. Estamos diante da produção de algo novo, a que estamos chamando de meio técnico- científico-informacional.

Da mesma forma como participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais), a ciência e a tecnologia, junto com a informação, estão na própria base da produção, da utilização e do funcionamento do espaço e tendem a constituir o seu substrato.” (Santos, M. 1996, pág. 159)

Esse novo tempo espacialmente vivido trás consigo novas formas ou meios da sociedade se relacionar com a natureza e ou com ela mesma, momento em que a luta de classes se explicita em novilíngua com o nome de “Crise”. A mudança de tecnologia, que agora é informacional e midiática, opera globalmente uma reorganização jurídica, política, econômica, social, moral e da consciência humana. Com isso, tradicionais formas de resistência, sejam elas de sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais ou outros setores da sociedade civil; podem não mais serem tão eficazes na luta social ou podem até mesmo ser corrompidos e utilizados contra outros setores progressistas. Tal prática já vem sendo estudada, refinada e atualizada pelo Departamento de Defesa estadunidense através do financiamento de projetos de pesquisas nas melhores universidades norte-americanas por meio do programa chamado Minerva e pela ação prática da chamada guerra não convencional.

Práticas de desestabilização e dominação do início do séc XXI

Após a queda do muro de Berlim, e consequente derrota da URSS, os EUA, vencedores do jogo geopolítico mundial ao final do séc. XX, ficaram sem adversários capazes de desafiar sua hegemonia. A partir disso, precisavam construir um inimigo que justificasse suas guerras a fim de conseguir mais recursos naturais, abrir mercados para suas empresas transnacionais e também manter sua hegemonia como superpotência mundial. A resposta a isso foi a guerra ao terror. Seu marco e justificativa, 11 de setembro de 2001.

Dentro desta estratégia, os EUA desde o início deste século também adotam um conjunto de estratégias de ação ou ingerências dentro do jogo da geopolítica mundial, entre elas destacam-se a UW (Unconventional War ou Guerra Não Convencional) e a Hybrid War (Guerra Híbrida).

Uma das primeiras experiências com esse tipo de ação ocorreu nas chamadas Revoluções Coloridas no leste europeu a partir dos anos 2000. Depois, na tentativa de Golpe de Estado na Venezuela em 2002. A Primavera Árabe, com início em 2010. A guerra civil na Síria cujos protestos se iniciaram em 2011. Os Golpes de Estado em Honduras, em 2009 e no Paraguai, em 2012. As intervenções sobre a Ucrânia, a partir de 2013 e sua intensificação sobre a Venezuela até o presente. E finalmente o Golpe de Estado no Brasil em 2016 e a instabilidade na Turquia no mesmo instante.

Todas essas ações partem do território estadunidense e seguem os ritos que podem ser encontrados basicamente em 3 documentos do governo estadunidense, os quais seriam: Special Forces Unconventional Warfare Operations (FM 3-05.201 e Training Circular (TC) 18-01) e From Dictatorship to Democracy de Gene Sharp; além de outros.

O jornalista e autor do livro Empire of Caos, Pepe Escobar (2016), salienta em um artigo para o jornal Russia Today um aspecto primordial daquilo que viria ser a guerra híbrida, que já vem sendo utilizada no Brasil há pelos menos 3 anos (julho de 2013): “[…]Hybrid War can be interpreted essentially as the weaponization of chaos theory – an absolute conceptual darling of the US military (“politics is the continuation of war by linguistic means”)”. Além deste aspecto basal, outras indicações de seu funcionamento podem ser observadas a partir de citações presentes nesses documentos. A seguir, encontram-se duas citações do documento FM 3-05.20 (Special Forces Unconventional Warfare Operations) que demonstram como desestabilizar e dominar territórios ou regiões.

“FM 3-05.20 defines UW as a broad spectrum of military and paramilitary operations, predominantly conducted through, with, or by indigenous or surrogate forces organized, trained, equipped, supported, and directed in varying degrees by an external source. UW includes, but is not limited to, guerrilla warfare (GW), sabotage, subversion, intelligence activities, and unconventional assisted recovery (UAR)”. (…) A government’s inability or unwillingness to meet the legitimate needs of its people may cause widespread frustration and dissatisfaction. People may lose their faith and confidence because the government lacks legitimacy. They may also simply recognize that the government is incapable of effectively providing internal security and development.” (FM 3-05.20. 2003, pág. 1-1 e 1-3)

Um diagrama (ilustração a seguir), retirado do Special Forces Unconventional Warfare Operations (Training Circular- TC 18-01, pág. 2-4), demonstra com precisão os mecanismos de interferência de parte da política estadunidense em outros territórios soberanos. São 17 etapas que demonstram como desestabilizar países ou regiões através da chamada guerra não convencional. Repare que nas primeiras 15 etapas o governo estadunidense não se coloca oficialmente como autor da desestabilização, ao se utilizar de todos os meios possíveis para controlar o território alvo de forma sutil ou encoberta, como por exemplo, quando financia de ONGs, institutos e outras organizações para que atuem em prol de interesses estadunidenses; além da infiltração de agentes em sindicatos, movimentos sociais, partidos políticos e qualquer outro setor chave da sociedade; com o intuito de desestabilizar ou desmoralizar o governo, seja ele democrático ou ditatorial; preparar a população para aceitar o novo governo imposto -ou impostor- e organizar um governo paralelo, dirigido diretamente por Washington, que assume o poder acobertado pelo governo impostor.

escala

Além da ação prática que vem sendo observada, mapeada e estudada há décadas por historiadores, sociólogos, geógrafos etc, o Departamento de Defesa dos EUA também financia seus próprios estudos com o objetivo de refinar estas ações. Em reportagem publicada pelo jornal inglês The Guardian, o especialista em segurança internacional, Nafeez Ahmed, informa que desde 2008 sabe-se da existência do programa Minerva Research Initiative; iniciativa do Departamento de Defesa dos EUA para estudar profundamente as dinâmicas sociais, culturais e políticas em regiões de interesse ao redor do mundo, em parceria com as melhores universidades do país, segundo consta no site do programa: http://minerva.dtic.mil/.

Um dos tópicos tidos como prioritários para o programa em 2016 chama-se Influência e Mobilização para Mudança. Dentro deste, encontram-se os seguintes sub-itens: “mechanisms of information dissemination and influence across diverse populations; mechanisms of (and factors inhibiting) mobilization at individual and group levels; the interaction between emotion and cognition and its impact on future behavior; relationships between human agency and larger patterns of behavior and meaning” (http://minerva.dtic.mil/topics.html)

Por conseguinte, fica claro o uso das ciências humanas e sociais aplicadas às atuações militares em inúmeras regiões do planeta com o objetivo de influenciar, dirigir e controlar movimentos sociais, organizações da sociedade civil e governos, atendendo assim aos objetivos do Departamento de Defesa dos EUA.

O programa Minerva, que conecta o conhecimento prático das operações especiais do governo estadunidense às ciências humanas e sociais, em conjunto com informações adquiridas pelo programa Prisma (sistema de vigilância global que espiona contas de emails, contas do facebook, Apple, Google e Microsoft; revelado em 2008 por Edward Snowden), faz parte da política de manutenção e ampliação do império norte-americano em um tempo de reorganização geopolítica mundial, ascensão dos BRICS e escassez de recursos naturais. É nesse contexto geopolítico mundial que se descortina o Golpe de Estado no Brasil.

O Brasil no jogo geopolítico internacional

“According to the view from Beijing, the rising world order of the twenty-first century will be significantly determined by a quadrangle of BRIC countries—for those of you by now collecting Great Game acro- nyms, that stands for Brazil, Russia, India, and China—plus the future Islamic triangle of Iran, Saudi Arabia, and Turkey.” (Escobar 2014, pág. 17)

O golpe, ou a desestabilização política, econômica e social que afeta o país não é fruto única e exclusivamente de problemas ou contradições nacionais, tão pouco e da chamada crise financeira ou econômica mundial. Há sim uma ingerência no território brasileiro capitaneada pelos interesses do capital financeiro globalizado e empresas transnacionais com sede nos EUA e Europa principalmente.

Na última década o Brasil e a América do Sul tornaram-se importantes jogadores da política internacional. Aprofundamos as relações comerciais do Mercosul. Criamos a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) em 2008. Ampliamos as relações comerciais, políticas, e principalmente, culturais com a África (uma das principais matrizes da cultura e da população brasileira). Em um artigo para a revista Carta Capital, o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, cita uma frase que foi ouvida de um pesquisador africano que joga luz à importância das relações Brasil-África:  “Para cada problema africano existe uma solução brasileira”. (Amorim 2011)

O país também tem sido chamado para mediar importantes conflitos, como, por exemplo, a guerra civil no Haiti; ou mediando, através de seu reconhecido Soft Power, os problemas entre Iran e EUA.

É membro fundador do IBAS (forum de diálogo fundado em 2003 composto pela Índia, Brasil e África do Sul) e dos BRICS, grupo que inclui os seguintes países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e Africa do Sul. Juntos, eles têm uma economia igual ou superior a estadunidense. Desse grupo, surgiu o Novo Banco de Desenvolvimento, que ameça a hegemonia do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) além de outras instituições financeiras cuja moeda está ancorada no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Sobre a crescente importância do país e de seus novos parceiros para a geopolítica mundial, vale citar algumas declarações:

“Economic and political tectonic plates are shifting.” Robert Zoellick, Diretor do Banco Mundial

“A new global economic geography has been born.” Lula, presidente do Brasil

“Forming a new global consensus. Call it the rise of the periphery (the “Second” and “Third” worlds). Call it the dawn of the post-Washington Consensus”. Vladimir Putin, presidente da Rússia. (Escobar 2014, pág. 152)

Além disso, o Brasil criou e desenvolveu outras tecnologias únicas no mundo. Um exemplo é o desenvolvimento da mais avançada e eficiente centrífuga do mundo, que levita pela ação do electromagnetismo, para o enriquecimento de urânio. Tal projeto de desenvolvimento tecnológico foi pensando para fornecer o combustível de submarinos nucleares que estão sendo produzidos no estado do Rio de Janeiro para monitoramento e defesa do pré-sal e da chamada Amazônia Azul, área de território marítimo brasileiro que se estende até uma distância aproximada de duzentas e doze milhas marítimas contadas a partir da costa (Lei 8.617, de 1993).

Outro exemplo, foi a tecnologia desenvolvida pela Petrobras, junto a outras empresas parceiras, que propiciou a exploração e extração de petróleo e gás a 7 quilômetros de profundidade (2 quilômetros da lâmina d`água + 5 quilômetros no leito oceânico).

Além da óbvia riqueza mineral presente na costa brasileira, a tecnologia para se extrair óleo e gás talvez seja até mais importante que o próprio pré-sal. Quantos outros pré-sais podem existir em quantos outros mares e oceanos? Que país não gostaria de ter tal tecnologia capaz de pesquisar, encontrar e extrair óleo e gás em regiões que até então não podiam ser exploradas por falta de tecnologia? Se ⅔ do planeta está submerso e a imensa maioria do leito oceânico se encontra em águas tão ou mais profundas que o pré-sal, é de se pensar que as próximas gerações de tecnologias da Petrobras de exploração em águas profundas possam ser utilizada para a exploração de virtualmente todo o fundo do mar?

Toda essa mudança de patamar do continente e do país, fez com que a região passasse a ser vista como uma ameaça à hegemonia dos países desenvolvidos e, principalmente, às atuações de suas empresas transnacionais. Não é à toa que a Operação Lava Jato se concentrou exatamente nas empresas brasileiras (Petrobras, Odebrecht e outras de setores chave) que fazem concorrência internacional direta às transnacionais americanas e europeias.

Ao império norte-americano não interessa a ascensão de uma potência regional alinhada a outros países dos BRICS. Seu projeto de poder, o chamado Full Spectrum Dominance, pretende manter sua hegemonia global em diversos aspectos, desde de a hegemonia militar até a informacional. O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães cita quais são os principais objetivos estratégicos dos EUA no prefácio do livro A Segunda Guerra Fria, resumidos a seguir:

-manter sua hegemonia sobre os sistemas de comunicação e de informação (elaboração e difusão de notícias, cinema, rádio, televisão e internet) que forma o imaginário das diferentes elites dos distintos Estados e sociedades, em especial no que diz respeito a formação das imagens sobre os eventos internacionais (incluídas as operações de guerra psicológicas), sobre os “valores superiores” da sociedade americana e sobre os objetivos “altruístas” de sua política externa;

-manter sua hegemonia nos organismos econômicos internacionais;

-manter sua hegemonia sobre ao acesso a recursos naturais no território de terceiros países, em especial ex-colônias;

-manter sua hegemonia política através do controle, tanto quanto possível, do Conselho de Segurança das Nações Unidas;

-manter a vanguarda americana no desenvolvimento científico e tecnológico;

-manter abertos os mercados de todos os países para seus capitais e para suas exportações de bens e serviços;

-manter sua hegemonia militar em todas as regiões do globo por meio aéreo, terrestre e naval (são 750 bases militares no exterior, 1,4 milhão de soldados – sendo 350 mil estacionários em 130 países).

Assim, os EUA estão “apenas” tentando manter sua hegemonia global no período em que há a ascensão de outras potências diretamente competidoras, como a China, e regionais, como a Índia e o Brasil.

Em relação a nós latino-americanos, os EUA jamais admitiram o alinhamento de qualquer um dos países do continente com qualquer outra potência global, pois isso estaria em dissonância com sua ideologia, como aborda a seguir o politólogo Moniz Bandeira (1972, pág. 11):

Como Dizia Engels, ‘os Estados Unidos são, por sua origem, um país moderno e burguês, fundado por petits-bourgeois e camponeses, que fugiram da Europa para estabelecer uma sociedade puramente burguesa’. Nenhuma outra nação, portanto, representaria melhor o espírito do capitalismo, na sua expressão mais alta, mais apurada e mais perfeita. As relações entre o Brasil e os Estado Unidos, em dois séculos, refletiram as manifestações desse espírito, o desenvolvimento de seus interesses e de suas ambições, que se reduzem a um só objetivo: o lucro”.

favelaFoto: Tiago Macambira, julho de 2016.

Entre Ondas Eletromagnéticas e Mares de Morros          

Jardim Guarujá, periferia sul de São Paulo. Domingo. Casas acomodam-se umas nas outras sobre as ondas dos Mares de Morro (tipo de relevo da região). Acima, 27 pipas disputam espaço com três torres transmissoras e receptoras de informação; classificadas pelo geógrafo Milton Santos como próteses estrategicamente fincadas nos territórios e através das quais #hashtags são aspergidos 24 horas por dia para manter homogênea e dócil a cultura da gente das novas senzalas capitalistas. Telecomandados e manipulados ideologicamente através de ondas eletromagnéticas por mentiras, ameaças veladas, violência de várias formas e seduções mercadológicas, os seres humanos das periferias brasileiras são coagidos a seguir as ordens que chegam por estas ondas, marolas ou maremotos eletromagnéticos diretamente a seus lares, famílias, mentes e inconscientes.

Normalmente utilizadas pelas elites locais com a intenção de lucro, as torres aspersoras de #hashtags também vem sendo utilizadas – cada vez mais intensamente nos últimos meses – por agentes hegemônicos globais com o intuito de desacreditar os governos progressistas e incitar a violência contra grupos, partidos ou organizações não alinhadas aos interesses de Washington e seus parceiros.

Em artigo para o Russia Today (2016), O jornalista Pepe Escobar cita algumas diretrizes presentes nos manuais de guerras não convencionais do governo estadunidense que já estão sendo usadas por aqui com o fim de manipular e conduzir a opinião pública, como por exemplo as seguintes:

In the UW manual, swaying the perceptions of a vast “uncommitted middle population” is essential in the road to success, so these uncommitted eventually turn against their political leaders. The process encompasses everything from “supporting insurgency” (as in Syria) to “wider discontent through propaganda and political and psychological efforts to discredit the government” (as in Brazil). And as an insurrection escalates, so should the “intensification of propaganda; psychological preparation of the population for rebellion.” That, in a nutshell, has been the Brazilian case.

Além da intenção de manter homogêneas e dóceis as periferias, os agentes hegemônicos globais necessitam também da classe que executa as ordens das elites, a tradicional classe média ou, ironicamente chamada de classe mídia. Professores, médicos, advogados, servidores públicos e privados, trabalhadores do terceiro setor, jornalistas, fotógrafos, engenheiros, juízes e outros profissionais da classe mídia devem ser convencidos a aceitar o novo regime político e a manter a execução das ordens em troca de pequenos privilégios; como demonstra com precisão o sociólogo Jessé Souza, autor de A Tolice da Inteligência Brasileira, de A Radiografia do Golpe: entenda como e por que você foi enganado, de A Ralé Brasileira, entre outros. Os setores progressistas da sociedade e seus expoentes, que resistem a implementação de políticas ultra-liberais, devem ser banidos ou tolhidos da vida política do país alvo. Para tanto, se utilizam de redes sociais como, por exemplo, facebook, twitter, instagram, whatsapp e outros; além das tradicionais mídias, como jornais, revistas, rádio e a televisão. Na última semana de julho de 2016 a revista Carta Capital publicou a seguinte pesquisa, demonstrando o domínio das páginas de orientação política conservadora, pró-EUA, em detrimento das páginas progressistas, tradicionalmente defensoras das minorias e dos direitos humanos fundamentais: “Movimento Contra a Corrupção (2,5 milhões), Revoltados Online (1,7 milhão), Partido anti-PT (1,4 milhões), AnonymousBrasil e Vem Pra Rua (com 1,4 milhão cada). Do lado que se intitula progressista vem o Deboas na Revolução (871 mil), Direitos Humanos Brasil (816 mil), Geledés (490 mil), Passe Livre São Paulo (335 mil) e SP Invisível (325 mil)”. (Gombata, M. 2016)

Nesse sentido, para dar forma à massa cidadã politicamente amorfa existente na maior parte dos territórios do mundo, foi pensada, pesquisada e ensaiadas estratégias que seguem a “lógica da terra arrasada, de preferência levada a cabo pelos próprios autóctones, sem intervenção externa direta e sem interferência militar. Uma guerra não-declarada na chamada “zona cinzenta”, onde os justiceiros locais fazem o serviço sujo, manejando as armas do Estado de Exceção e, em sintonia com a mídia golpista, detonando bombas informacionais com impacto calculado sobre a opinião pública e sobre as instituições.” Como explicitou o professor da Universidade Estadual de Campinas Laimert Garcia dos Santos (2016).

O Golpe de Estado que pretende desorganizar política, social e culturalmente o país surge num contexto de reorganização geopolítica mundial. Ao mesmo tempo em que há uma relativa queda do império norte americano, outras regiões e países ascendem. China, Rússia, Índia, regiões da África e América do Sul floresceram, cada um a seu modo, neste início de século. Nos últimos 14 anos o Brasil através de suas empresas transnacionais -e do secular soft power (capacidade de negociação e mediação diplomática, observando os valores da paz)- começou a disputar territórios, mercados e recursos com tradicionais empresas transnacionais do ocidente e também com novas empresas do oriente.

O que os brasileiros estão vendo, sentindo e sofrendo nos últimos anos é também fruto dessa reorganização geopolítica mundial que se aproveita das contradições e problemas dos países ou regiões para dominar e explorar seus recursos, sejam eles naturais, tecnológicos ou a mais-valia de seu povo. O mundo se vê em um processo de aprofundamento do capitalismo e da ideologia que dá suporte a existência e funcionamento deste -o liberalismo, que agora já vem sendo chamada de ultraliberalismo. Sua face aparente se revela na costura de dois novos acordos de comércio e prestação de serviço internacional chamados de TTP (Trans-Pacific Partnership) e TISA (Trade in Service Agreement). No TISA, por exemplo, existe uma cláusula que informa que qualquer empresa ou Estados signatários possam arguir sempre que acharem que alguma lei possa estar atrapalhando o comércio de determinado item, sendo tal lide julgada por painéis “independentes”.

De nós índios, o Capital quer recursos naturais, a tecnologia capaz de explorar esses recursos, terras que forneçam alimento, leis que deem suporte à exploração da mais-valia e, principalmente, uma população totalmente alienada que não forneça nenhum tipo de resistência às investidas do Capital internacional, mesmo quando este tem a intenção de nos rebaixar a condição próxima a escravidão.

Assim, o Golpe de Estado aterrissou no Brasil por três vias: pelo poder judiciário, pela grande mídia e pela sociedade civil (ONGs, institutos, fundações e outras organizações de cunho político, comercial e até educacional); se instalou pelo poder legislativo; e já se enraizou no executivo. Revelações sobre essas ingerências estadunidense no território brasileiro já haviam sido divulgadas pelo ex-espião da NSA (National Securit Agency) Edward Snownden e pelo site Wikileaks, mas nenhuma ação concreta do Estado brasileiro conseguiu barrar tamanha investida, pois certamente contou com a conivência ou participação ativa de importantes setores do Estado brasileiro e da sociedade civil que pensam lucrar horrores com tudo isso.

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Setembro de 2016.

Tiago Pelegrini Macambira é Bacharel em Geografia e fotógrafo profissional

 

 

 

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Um comentário sobre “O golpe transnacional

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