O “efeito Trump” divide a opinião europeia

M K Bhadrakumar

Os resultados das eleições presidenciais na Bulgária e na Moldávia indicam uma tendência de aproximação à Rússia e de distanciamento em relação à UE. Conjugados com declarações de Trump no decurso da campanha eleitoral, apontam para crescentes clivagens internas no bloco europeu ocidental. A agressiva política de militarização apontada a Leste não constitui apenas a perspectiva de uma tragédia militar. Vai também contra interesses comerciais e económicos para os quais a UE não constitui alternativa.

Os resultados das duas eleições presidenciais realizadas domingo na Bulgária e na Moldávia sublinham os ventos de mudança que sopram sobre as margens ocidentais da Eurásia. Podem de algum modo ser designados como sinais precursores do “efeito Trump”. Em ambas as eleições candidatos “pró Rússia” venceram de forma convincente.

Em ambos os casos, a contestação reduziu-se no essencial a saber se Bulgária e Moldávia estariam melhor apostando na União Europeia ou realinhando-se com a Rússia. A resposta é clara.

O alargado objectivo de ser membro da UE já não é atractivo para a Moldávia, enquanto a Bulgária parece estar descoroçoada com a pertença à UE. Por outro lado, a Rússia é real e está mesmo ao lado. Os resultados das eleições de ontem constituem um golpe no prestígio da UE. Efectivamente, a influência de Moscovo está a ampliar-se no Leste da Europa.

Isto representa também uma viragem para a esquerda em termos políticos. Há em ambos os países muito descontentamento com “reformas”, corrupção desenfreada, etc. O sentimento russófilo é muito substancial e há interesse em promover o comércio com a Rússia de forma a ultrapassar dificuldades económicas. Os partidários locais do ocidente e da UE estão também desacreditados em ambos os países.

Na Moldávia apenas cerca de 30% da população considera a UE atractiva, ao passo que 44% apoiariam a adesão à União Económica Eurasiática liderada por Moscovo. Curiosamente, 66% dos moldavos confiam em Vladimir Putin; em comparação, apenas 22% confiam na palavra de Barack Obama.

Contra o pano de fundo da vitória eleitoral de Donald Trump nos EUA, será interessante observar como estas tendências irão evoluir. O presidente eleito da Bulgária, Rumen Radev, apelou ao fim das sanções da UE contra a Rússia. Argumenta que Sófia deveria ser pragmática na sua abordagem à anexação da Crimeia pela Rússia. (Isto não obstante a longa história búlgara de lealdades divididas entre a Rússia e a Europa.)

A administração Obama, no arrastar da sua fase final, irá tentar pressionar a UE a prolongar as sanções contra a Rússia por um período de mais seis meses após Dezembro. Mas irá Trump seguir as pegadas de Obama quando o problema emergir de novo em meados do próximo ano? É pouco provável que ele assuma o zelo messiânico de Obama em “conter” a Rússia. Será assim que o consenso da UE sobre as sanções contra a Rússia poderá romper-se uma vez que muitos países na Europa reagem à pressão americana e preferem restaurar os laços comerciais e económicos com a Rússia.

É interessante que Trump pode obter eco também na Velha Europa. O líder dos trabalhistas britânicos, Jeremy Corbyn, fez no fim-de-semana um surpreendente apelo aos líderes ocidentais a que “desmilitarizassem” a fronteira entre a Europa do Leste e a Rússia, sob pena de arriscarem uma nova Guerra Fria. O ocidente não tinha necessidade de acumular forças junto à fronteira russa.

Disse Corbyn à BBC: “Tenho muitas críticas a Putin, à violação de direitos humanos na Rússia, à militarização da sociedade. Mas penso que tem de haver um processo para tentar desmilitarizar a fronteira entre o que são agora os estados da NATO e a Rússia, de modo a afastar aquelas forças e mantê-las afastadas de forma a conseguir algum tipo de normalização. Não podemos cair numa nova Guerra Fria.

Corbyn fez também a prudente sugestão de a Organização para a Segurança e Cooperação Europeia, que inclui a Rússia, substituir a NATO como fórum para a resolução das questões na região.

Na verdade, alguma turbulência começou já no que diz respeito à segurança europeia, mesmo antes de Trump se instalar no Gabinete Oval. A propósito, o primeiro-ministro checo, Bohuslav Sobotka, disse no domingo que as declarações americanas acerca da possível instalação de um escudo global de radar antimísseis dos EUA na República Checa são pura ficção.

“Um radar no território checo significaria nova escalada nas relações com a Rússia. Precisamos de utilizar janela de oportunidade após a eleição de Donald Trump de modo a sentar à mesa Estados Unidos e Rússia”, afirmou ele. Sobotka destacou que o principal problema de segurança da Europa do Leste é hoje pôr um fim à guerra na Síria.

“Os Estados Unidos têm considerável influência na situação na Síria, a Rússia tem influência considerável. É portanto necessário utilizar isso”, disse, acrescentando que Donald Trump pode estabelecer uma mais eficiente cooperação sobre a Síria com a Rússia.

Entretanto, o facto é que nem Trump tomou ainda posição sobre a NATO nem vai ser fácil para ele procurar uma separação da América da aliança ocidental. Formulado simplesmente, a Europa não está pronta para um futuro pós NATO. Há palpável temor em muitos quadrantes (tanto nos EUA como na Europa) de que se os EUA se retirassem da Europa a Rússia avançaria e exerceria um comportamento de maior afirmação na Europa do Leste.

Num artigo deste fim-de-semana, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, fez um veemente apelo a Trump no sentido de que não é agora o momento de os EUA abandonarem a NATO. Mencionou enfaticamente a percepção da ameaça de uma Rússia “mais afirmativa”.

O fundo da questão é que a opinião pública europeia permanece dividida. A Grã-Bretanha, França e Hungria recusaram-se a comparecer a uma controversa reunião na noite passada em Bruxelas, apoiada pela Alemanha, para alinhar uma abordagem em bloco perante a eleição de Trump. O fosso dentro da UE sobre a votação nos EUA ficou à vista. O irreprimível secretário dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, ralhou com políticos da UE dizendo-lhes para acabarem com as suas “choraminguices” sobre Trump.

É interessante que o primeiro político estrangeiro com quem Trump se encontrou após a eleição tenha sido Nigel Farage, o populista que fez campanha pelo Brexit.

Antigo embaixador indiano, analista político.

Fonte original.

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