Seguro-traição

Fernando Rosa

Trata-se de uma “briga de bugios”, como dizem os gaúchos, a queda de braço entre o Enclave de Curitiba e o Congresso Nacional, em torno das “10 medidas” apresentadas pelos procuradores, em votação no Parlamento. De um lado, procuradores, sem voto, mas dizendo-se amparados em um midiático “apoio popular”. De outro, os parlamentares acusados de tentarem “intimidar” os procuradores para livrarem-se das garras da Lava Jato. A bem da verdade, nem uma coisa nem outra, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Independente de qual seja o interesse dos parlamentares, as medidas propostas atendem a um particular desejo dos procuradores por afirmar seu poder corporativo. “Por detrás de tudo está um projeto de poder corporativo, que torna os órgãos do complexo policial-judicial intangíveis pelos abusos que vêm cometendo em suas ruidosas investigações por forças-tarefa”, adverte o procurador e ex-ministro da Justiça, Eugênio Aragão. As medidas vieram após a instalação permitida pelo TRF4 de um “estado de exceção” na República de Curitiba.

Ainda de acordo com o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, os procuradores “pretendem aproveitar provas ilícitas, querem o poder de amplo plea bargain a condenar cidadãos por acordos que dispensem a instrução criminal, sonham em poderem armar situações de ofertas ilusórias de peita para testar integridade de funcionários, gostariam de tornar o habeas corpus mais burocrático, impedindo juízes de concedê-lo ex officio sem audiência prévia do ministério público e por aí vai”.

Se parte dos parlamentares busca fugir de punições, ou “estancar a sangria” da Lava Jato, é um fato a ser considerado, além das razões técnicas, jurídicas e legais. Mas, cada vez mais claras, são as razões para que juízes e procuradores envolvidos na Operação Lava Jato busquem a proteção do poder absoluto, diante de um futuro julgamento da história e, principalmente, dos homens. A operação Lava Jato, a cada dia, mais configura-se um “enclave” voltado para atender interesses externos.

Em pouco mais de dois anos, além de seletiva e persecutória, a ação da Operação Lava Jato devastou a economia brasileira de uma maneira irresponsável e criminosa. Atacou alvos estratégicos como a Petrobras, as empreiteiras nacionais, a indústria do petróleo, a indústria naval e a indústria de defesa nacional. Suas primeiras medidas foram aprisionar o presidente da Odebrecht – Marcelo Odebrecht, empresa líder das empreiteiras, e o Almirante Othon, o “pai do programa nuclear brasileiro”.

Agravam os crimes cometidos pela Lava Jato o fato de suas ações ocorrerem em um momento de derrota da globalização e do neoliberalismo no mundo. Nos EUA, Trump aposta na economia nacional e no mercado interno, a China anunciou redução de investimentos externos e já caiu o nível de entrada de capitais no país. Quando mais o Brasil precisa de suas próprias forças, a Operação Lava Jato fragilizou ou mesmo destruiu o centro nervoso produtivo da Nação.

Ao que parece derrotada, a Operação Lava Jato também tinha, ou ainda tem, em sua encomenda a prisão do ex-presidente Lula. “Se os procuradores e o juiz do caso efetivamente buscassem uma investigação legítima e dentro do devido processo legal, não estariam focados em uma pessoa, mas sim em fatos”, denunciou seu advogado, Cristiano Zanin. De fato, símbolo do Brasil moderno, em desenvolvimento e socialmente justo, Lula é o item nº 1 na lista dos alvos.

O destempero da mídia, o panelaço-gourmet desta semana e a promessa dos “coxinhas” de retornarem às ruas, apenas confirmam a simbiose entre a Lava Jato e o golpe de Estado. O “combate à corrupção”, no fundo, é apenas o álibi para justificar ações contra o Estado brasileiro, nossa economia e instituições. Um jogo de interesse externo, do capital financeiro internacional e das grandes empresas, em especial das áreas de infraestrutura, petróleo e naval.

A ilusão “republicana” em relação ao caráter da Operação Lava Jato, por outro lado, expressa a falta de compromisso com a real defesa da Nação brasileira. É inaceitável, diante do papel cumprido pela Operação Lava Jato até agora, acreditar em boas intenções vindas de seus juízes e procuradores. Se os parlamentares que deram o golpe não merecem qualquer confiança, menos ainda quem promoveu um ataque deliberado ao Estado nacional.

A reação dos parlamentares, por mais “interesseira” que possa ser, tem um fundo de revolta das instituições políticas à tentativa de imposição da ditadura do judiciário. Depois do golpe de Estado, com a destituição da autoridade máxima da Nação, por eles mesmos bancado, passou a imperar o “vale-tudo”. A esculhambação geral, onde nenhuma instituição é respeitada, especialmente aquelas que, ao contrário de juízes e procuradores, resultam do voto popular e, por isso, mal ou bem, representam a sociedade.

O impasse, a dúvida, que existe na cabeça do povo, da Nação é resultado da dificuldade em compreender a real dimensão do golpe de Estado e o papel de seus operadores, em especial da Lava Jato. É fundamental, então, esclarecer a quem interessa o golpe, quais os interesses envolvidos, quem está por trás. Ou se faz isso, ou a sociedade só terá olhos para os pequenos ladrões, e continuará confundindo bandidos com “mocinhos”, ou pior ainda, tratando alguns deles como heróis.

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5 comentários em “Seguro-traição

  1. Muita coisa escondida sob o pano das 10 medidas. O vídeo é muito bom para abrir os olhos de pessoas normais, conduzidas por propaganda enganosa de assassinos do Estado de Direito. Não caia na onda dos justiceiros de Curitiba. Você poderá ser a próxima vítima.

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  2. E A SAGA CONTINUA… NUNCA ALGUÉM DO PSDB!

    UMA ERVA DANINHA, UMA ERVA DE PASSARINHO, PARASITAS
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2016/12/01/uma-erva-daninha-uma-erva-de-passarinho-parasitas/

    “…Curioso é o ciclo, cruel, perverso. Uma sementinha bem pequena gruda no caule de uma planta. Ela consegue se grudar porque está embebida nas fezes expelidas pela cloaca de uma ave qualquer. Ela também dispõe de uma resina que ajuda no processo de “grudagem” inicial.

    Em um intervalo relativamente pequeno de tempo aquela sementinha de nada começa a germinar. E solta suas raízes. …”

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  3. E A SAGA CONTINUA… NUNCA ALGUÉM DO PSDB!

    POR QUEM AS PANELAS BATEM – Helena Borges
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2016/12/01/por-quem-as-panelas-batem-helena-borges/

    “OUVIU ISSO?
    Pois é, silêncio. Em seis meses de governo, seis ministros deixam o governo Temer em meio a conflitos de ética e escândalos de corrupção, um deles tratando como normal pressionar um órgão federal para atingir lucros pessoais; surge um cheque de R$ 1 milhão — assinado por uma empreiteira envolvida na Lava-Jato e direcionado nominalmente a Michel Temer —, a Câmara vota “medidas contra a corrupção” que, na realidade, só tornam a legislação mais permissiva. E nenhuma panela ressoou até então. …”

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