Falências orquestradas no Brasil, de Mauá à Odebrecht

Ceci Juruá

O capitalismo monopolista, ou o capitalismo das grandes corporações e de meia dúzia de banqueiros, tem séculos de experiência em matéria de dominação mundial, logo dispõe de um “patrimônio cultural destrutivo de fazer inveja”. Sem falar no armamento militar dos países que os abrigam.

Esta verdade empírica impõe-se com relativa facilidade perante nações periféricas. Há quem julgue, e aí se inclui esta autora, que os conglomerados são capazes de derrubar moedas frágeis através da combinação dívida + inflação. Verdade para países, mas também para indivíduos ou para grupos econômicos com os quais os conglomerados monopolistas concorrem no mercado mundial.

No Brasil dispomos de comprovações empíricas da capacidade de fogo de tais investidas do grande capital. Em algumas ocasiões ficou evidente estarmos frente a um golpe imperialista, em outras não. Depende é claro da ideologia do analista ou relator de um contexto histórico. Para muitas pessoas tem razão Samir Amin, quando afirma:

“…(o imperialismo – passado e presente) refere-se diretamente à minha tese central, a saber, de que a expansão global do capitalismo foi imperialista em todas as etapas de sua história e assim permanece por todo o futuro vislumbravel (enquanto o sistema permanecer essencialmente fundado sobre a lógica do capitalismo). Esse é um ponto de vista que raramente é partilhado pelos analistas do sistema global (da “mundialização)” (Samir Amin, O Imperialismo, passado e presente, Tempo, vol.9, número 18, jan/junho de 2005).

É claro que ao falar do imperialismo certos detalhes devem ser observados. Assim, por exemplo, suas táticas e estratégias podem diferir dependendo do tempo histórico e do contexto espacial e social no qual ele se insinua para fins de exploração e de dominação.

Ao analisar as metamorfoses das intervenções imperiais, sempre iminentes em nossos dias por conta dos interesses capitalistas em jogo- “urânio, petróleo, diamantes, madeiras preciosas, metais raros, cacao, café, bananas, ouro, carvão, alumínio, gás” -, o filósofo Alain Badiou enfatiza formas atuais do jogo imperial:

“Em vez de assumir tarefas penosas de constituir Estados sob tutela metropolitana ou, ainda, Estados diretamente metropolitanos, é possível, simplesmente, destruir os Estados. A coerência desta possibilidade é perceptível quando se observa a desestatização progressiva do capitalismo mundializado. (…)

Em regiões consideráveis, verificou-se a prática de destruir Estados, substituindo-os por quase nada, isto é, por acordos frágeis entre minorias, religiões, bandos armados diversos”. (Alain Badiou, Notre mal vient de plus loin, Paris, Fayard, 2016).

No Brasil, ofensivas imperialistas contra indivíduos ou empresas foram registradas em muitas ocasiões. Ainda nos falta compilar o material disponível e aprofundar as evidências. A mais conhecida até hoje refere-se à falência do Visconde de Mauá, durante a segunda metade do século XIX. Deveria ser mais estudada pois, até 2014, aquela parece ter sido a principal exposição de um brasileiro ao “fogo global” das Altas Finanças, e em diferentes espaços sociais.

Segundo a bibliografia disponível (os livros de Jorge Caldeira, Lidia Besouchet, Gilberto Maringoni, Claudio Gann e Ceci Juruá, entre outros) contra Mauá, e também a Autobiografia do próprio Mauá, se ergueram brasileiros em altos postos da burocracia estatal, membros do Parlamento e do Poder Judiciário, jornais, representantes de países da América Latina, por exemplo. Capitaneados ou defendendo os interesses maiores das Altas Finanças, sobretudo de Londres, o poderoso centro imperial da época.

Naquela ocasião, o ataque a Mauá foi facilitado por algumas características do contexto econômico da época. Por exemplo, a economia brasileira estava atrelada ao padrão ouro desde 1846 e a dívida externa acumulara-se a partir da instalação aqui de bancos estrangeiros (década de 1860).

Esta experiência precisa ser relembrada e analisada em profundidade pois fomos recolocados, ao final de 2014, na condição de país ameaçado e alvo de ataques imperialistas, no sentido que a eles conferem Samir Amin e Alain Badiou.

Os ataques atuais dirigem-se ao Estado nacional, por exemplo, e ao grande pacto social-democrata expresso na Constituição de 1988. Inimaginável até 2014, assistimos atualmente à investida de membros eminentes do Governo, do Congresso e do Poder Judiciário contra a Constituição que juraram defender ao tomar posse nos respectivos cargos. Crime de responsabilidade? Lesa-Pátria? Talvez.

Mais grave ainda é o fato de nenhum dos atuais ocupantes de cargos nos poderes citados, poderes da República, ter anunciado aos eleitores cujo voto disputaram, que iriam propor mudanças constitucionais da profundidade que constatamos hoje. Ai se trata, efetivamente, de traição à soberania popular que eles supostamente representam.

Simultaneamente à investida contra o Estado e contra os princípios fundamentais de nosso Estado Democrático de Direito, verifica-se também, por outros caminhos, uma intenção mal disfarçada de reduzir ou até destruir, a mais bem sucedida de nossas empresas não-financeiras, hoje conglomerado Odebrecht. Também Mauá formara um conglomerado poderoso na passagem dos anos 1840 para 1850.

Com a Odebrecht, e algumas construtoras enquadradas na Lava Jato, há o risco de destruição da parcela mais rica e promissora da engenharia brasileira, responsável pelo acúmulo de invejável patrimônio técnico e tecnológico. Um setor de atividade do qual dependem o crescimento da economia e a recuperação da indústria no Brasil. Invejável patrimônio que vimos construindo desde o século XVII, com a edificação de fortes militares e de arsenais de construção naval e fabricação de utensílios indispensáveis à Defesa Nacional. Em seguida, fortalecido no século XIX com as iniciativas de Mauá nos campos da metalurgia, construção naval e ferrovias.

Assim como o heróico Irineu Evangelista de Souza, o grupo Odebrecht procurou aliar-se ao Estado nacional e assumiu áreas estratégicas de atividade econômica, inclusive em matéria de Defesa Nacional (sobre a importância da Defesa Nacional, e os riscos atuais ver no portal do Clube de Engenharia. Mais ainda, trata-se de um grupo presente no cenário internacional, em dezenas de países, cuja competência tem sido evidenciada nas disputas de que participou, vencendo inclusive grupos norte-americanos nas obras de reforma do aeroporto de Miami. Ousadia imperdoável! Diriam os representantes do imperialismo atual.

Não obstante, existem grandes diferenças entre o século XIX e a atualidade. Ninguém se ilude quanto à possibilidade de manter escravo do atraso tecnológico um povo como o brasileiro, uma nação que hoje supera 200 milhões de pessoas. Nossos empresários também evoluíram, e a prova é a reação da Indústria Naval, cujo Sindicato entrou com ação judicial para impedir que a Agencia Nacional de Petróleo modifique a norma de exigência de conteúdo local nos equipamentos para a exploração de campos do pré-sal. Discursando para os operários do estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis, Lula condenou as novas políticas da Petrobrás:

“Não podemos permitir que a Petrobrás abra mão do conteúdo nacional. Se a direção da Petrobrás resolver comprar navios e sondas fora, eles vão engordar os estrangeiros e vocês vão ficar desempregados” (www.desenvolvimentistas.com).

Ainda é possível reverter o jogo sujo da política atual, resgatar a Odebrecht das garras de membros dos poderes da República alienados e divorciados do interesse nacional, preservar nosso amplo conhecimento tecnológico em matéria de engenharia, e retomar a trajetória do desenvolvimento com inclusão social. Nossa própria história pode operar como um brado de alerta e de sinalização na identificação dos inimigos do Brasil e do povo brasileiro.

Ceci Juruá é economista, pesquisadora, Doutora em Políticas Publicas, membro do Conselho Consultivo da CNTU e do Fórum 21.

Fonte original.

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