Visão além do alcance (2)

Fernando Rosa

“É preciso lembrar que esta tomada de decisão é apenas uma batalha dentro de uma guerra ampla que estamos travando contra os verdadeiros autores do golpe, o capital financeiro internacional, nacional e seus lacaios e representantes”. 
– Gilberto Carvalho, dirigente do PT

A afirmação é do dirigente petista Gilberto Carvalho, em artigo que defende a participação do partido nas mesas da Câmara e do Senado – como “a esfera de atuação institucional que nos resta no plano nacional”. A posição, que deveria ser algo visto como natural, ainda suscita o debate em torno da compreensão do caráter do golpe de Estado e das formas de enfrentá-lo do ponto de vista geral.

Ao identificar o capital financeiro internacional como “os verdadeiros autores do golpe”, Gilberto Carvalho define a questão central que deve pautar não apenas este debate, mas toda a estratégia da luta contra os golpistas. Identificar claramente o inimigo é a condição principal não apenas para posicionar as tropas, mas também para promover as alianças necessárias ao desenvolvimento da luta, em condições de torná-la vitoriosa.

O assalto do sistema financeiro ao Orçamento da União, de um lado, e a destruição das forças produtivas por parte da Operação Lava Jato, por outro, comprometem a existência soberana do país. A questão principal, portanto, está além de ocupar ou não um espaço institucional no Parlamento, mas na construção de um Projeto Nacional capaz de articular as forças políticas em defesa do Brasil – civis e militares.

Em pronunciamento quando da invasão à escola do MST, em São Paulo, Lula alertou para os interesses externos envolvidos no golpe, e também advertiu para a necessidade de romper com o isolamento das bandeiras setoriais e construir uma ampla unidade em torno de um projeto nacional. “O que nós vamos propor para esse país para os próximos vinte, trinta anos?”, questionou ele, sugerindo a criação de um “movimento” que unifique pessoas que pensem diferente, em torno de propostas em comum para o país.

Um golpe de Estado, em qualquer lugar ou época, altera o curso natural da história e, com isso, necessariamente impõe uma nova forma de ver e analisar a realidade e de posicionar-se corretamente em relação a ela. Ignorar que o país está sob severo ataque da gangue bélica-rentista mundial já ofuscou a percepção anterior ao golpe e pode levar agora a um impotente isolamento político.

No Brasil, definitivamente, não sofremos “um golpe do Cunha”, mas do sistema financeiro internacional e da burguesia rentista interna que tratou, inclusive, de colocar seus “colegas” de classe – produtivos – na cadeia. A nova disputa de poder exige, ainda, a compreensão de que vivemos uma nova realidade internacional, em que os golpistas tanto internos, quanto externos, estão na contramão da história.

Assim como nos EUA, que deu vitória a Trump, é preciso defender claramente a industrialização do país, a garantia de empregos, promover o mercado interno e desenvolver a ciência e a tecnologia. A mobilização localizada, por outro lado, a exemplo dos heróicos estudantes, é fundamental mas não suficiente para galvanizar a sociedade – escrevemos no artigo Visão além do alcance, antes da eleição norte-americana.

Na posse, o discurso do presidente norte-americano, ao contrário do que diz a mídia corrupta, reforçou a ideia da construção de novas formas de convivência na Humanidade, com respeito às Nações. Isso depende menos dele, e da capacidade de enfrentar seus “inimigos internos”, e mais de cada país, que precisam reafirmar suas identidades, suas soberanias, com desenvolvimento, solidariedade e paz.

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