Luis Inácio falou

Fernando Rosa

Em seminário realizado em São Paulo, com participação de trabalhadores metalúrgicos de todo o Brasil, o ex-presidente Lula reforçou o fato de estarmos vivendo uma situação de “anormalidade” no país. Ele também afirmou que atualmente a luta é mais política, no sentido de fazer a sociedade compreender o que está acontecendo, e somar-se na luta conjunta, do que apenas brigar por interesses setoriais. Ainda, depois de dizer “que tem dedo estrangeiro nesse negócio da Lava Jato”, destacou que não se está levando a sério as consequências da operação para a economia brasileira.

A fala de Lula não poderia ser mais educativa nesse momento em que boa parte da esquerda, setores democráticos e, mesmo nacionalistas, no Brasil e no mundo, principalmente na Europa, está atrapalhada com a nova realidade do mundo pós-eleição de Donald Trump. A situação de “anormalidade” para a qual Lula chama a atenção é, na verdade, mundial, resultado da implosão da globalização nos Estados Unidos e no mundo. Independente dos resultados da administração de Trump, o mundo não é mais o mesmo, o que exige uma nova postura dos países e das lideranças diante disso.

A maior dificuldade está em superar “a falência do pensamento progressista mundial, incapaz de formular a defesa das Nações perante o neoliberalismo e à nova situação da economia mundial”, como advertiu Filipe Camarão no artigo “O fim do mundo unipolar“. Tal incapacidade leva boa parte da esquerda a se aferrar às bandeiras “liberais progressistas” desvinculadas das questões centrais. O que deu a vitória a Trump foi a sua identidade com os segmentos marginalizados pela globalização e também a ausência de uma “esquerda genuína”, como definiu Nancy Fraser em “A eleição de Donald Trump e o fim do neoliberalismo progressista“.

“A vitória de Trump não é unicamente uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não foi simplesmente o neoliberalismo, mas o neoliberalismo progressista”, escreveu Fraser em seu artigo. Segundo ela, “nos EUA, o neoliberalismo progressista é uma aliança entre, de um lado, correntes majoritárias dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT) e, do outro lado, um setor de negócios baseado em serviços com alto poder “simbólico” (Wall Street, o Vale do Silício e Hollywood)”. “Nesta aliança, as forças progressistas se unem às forças do capitalismo cognitivo, especialmente à “financeirização”, diz ela.

Simplificadamente, poderia-se dizer que atualmente, a exemplo dos Estados Unidos, o mundo vive o conflito entre o sistema financeiro e seus aliados, em especial a indústria bélica, e o capital produtivo e sua gama de cidadãos e países “deserdados”; e entre a gangue rentista transnacional e os legítimos interesses das Nações. Apenas para se ter uma ideia da tensão dessa disputa do ponto de vista internacional e local, para cada US$ 100,00 na economia mundial, US$ 85,00 estão alocados na especulação financeira. Em artigo nesta semana, Elio Gaspari lembrou que a eleição de Trump serve para “lembrar que os países precisam de políticas nacionais. Certas ou erradas, mas nacionais”.

Abriu-se portanto, uma grande janela de oportunidades para o Brasil que, se aproveitada, poderá resultar na afirmação definitiva da nossa vocação de grande Nação, valorizada e respeitada neste novo mundo que se avizinha. Em vários momentos da história do país, diversos setores sociais, econômicos e políticos deram sua contribuição para a construção do Estado brasileiro, desde José Bonifácio, Getúlio Vargas, Ernesto Geisel, chegando até Lula no Brasil moderno. Agora, não resta outro caminho para os brasileiros que não seja definitivamente  unir-se para impedir a destruição do Estado nacional e afirmar o Brasil nesse novo mundo que se avizinha.

Nesse sentido, o próprio Lula falou, e outras lideranças e pensadores têm dito, que é necessário construir um programa, mais do que isso, um Projeto Nacional, que dê conta dessas novas tarefas econômicas e geopolíticas. Uma proposta concreta e pactuada entre todos os setores envolvidos, civis e militares, que tenha o poder de produzir um ambiente de confiança econômica, política e patriótica entre seus integrantes. É urgente deter a destruição da economia, o comprometimento da infraestrutura, o ataque à defesa nacional e a agressão aos direitos sociais.

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