Os senhores da guerra

Fernando Rosa/Felipe Camarão

O neoliberalismo não aceita os Estados Nacionais. O neoliberalismo não aceita a democracia. O neoliberalismo não aceita perder eleição. Não aceitou no Brasil. Não aceita no Equador. Não aceita nos EUA.

O neoliberalismo só quer saber da guerra para impor a sua hegemonia a qualquer custo sobre o conjunto na Humanidade. Uma guerra não mais por mercados, mas de destruição, que começou no Iraque e estendeu-se para Líbia e Ucrânia, e atinge em cheio o Brasil, por meio da criminosa “Operação Lava Jato“. “Não são guerras para apropriarem-se das riquezas desses países, mas sim para impedir que produzam”, segundo Felipe Camarão no artigo “O fim do mundo unipolar“.

É isso que explica as recentes movimentações no cenário geopolítico internacional. Engana-se quem acha que o jogo é o mesmo de sempre, que nada mudou. O jogo ficou mais pesado, o mundo inteiro está sendo tragado para dentro do vulcão.

Um dia após a eleição norte-americana, escrevemos no artigo “Americanexit“:

“As grandes placas tectônicas do capitalismo mundial moveram-se nervosamente nas últimas horas. A eleição norte-americana escancarou a crise do neoliberalismo financeiro mundial como alternativa para os Estados Unidos e para o mundo. Uma espécie de Americanexit, a vitória de Donald Trump também traduz a mais profunda divisão da sociedade na história dos Estados Unidos”.

No mesmo artigo citado anteriormente, também afirmamos:

“A vitória de Trump, ou qualquer que fosse o resultado, não significa solução à vista, mas o aprofundamento dessa divisão nacional e mundial. Diante da reação do ‘mundo produtivo’ de Trump, o sistema financeiro reagirá ferozmente, ampliando ainda mais a crise. Resta saber se ele terá condições políticas para resistir as pressões de Wall Street, do Pentágono e da indústria bélica, e impor suas ideias”.

No caso do bombardeio da Síria, antes de qualquer avaliação ideológica sobre a figura de Donald Trump, é preciso entender o jogo de xadrez da disputa para a qual alertamos. Ou seja, entre o novo poder que emergiu das urnas e o poder estabelecido de Wall Street, do Pentágono e da indústria bélica. Este é o pano de fundo do jogo que agita os diversos players neste momento e que, de certa forma, também faz dos Estados Unidos um alvo.

Mais do que avaliações ideológicas, nestes casos valem os fatos.

Em 13 de fevereiro, o conselheiro de Segurança Nacional do governo dos Estados Unidos, e “ponte” do novo novo governo com a Rússia, Michael Flynn, pressionado, pediu demissão, constituindo-se na primeira defecção no primeiro escalão da gestão Donald Trump. Em seu lugar, assume a chefia do Conselho de Segurança Nacional o general Herbert McMaster, que dirige o NSC desde 20 de fevereiro e tem experiência em missões no Iraque e Afeganistão.

Um dia antes do bombardeio à Síria, nesta sexta-feira, 7, Steve Bannon, chefe de estratégia da Casa Branca, e principal assessor de Donald Trump, foi afastado do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, de forma unilateral.

Com a reestruturação, o diretor de Inteligência Nacional, Dan Coats, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, o general Joseph Dunford, voltam a ser “participantes regulares” do conselho.

Tais situações, ainda foram entremeadas com outras ocorrências que apontam na direção da retomada do “plano original” de confrontar a Rússia e incendiar o Oriente Médio.

No dia 27 de março, uma manifestação “contra a corrupção” (que teve inclusive “patos amarelos”), considerada “uma provocação” pelo governo russo, foi organizada em Moscou pelo opositor Alexei Navalny. Em 3 de abril, um atentado terrorista entre duas estações do metrô de São Petersburgo, na Rússia, deixou mortos e feridos, fato novamente denunciado pelas autoridades russas como ato de agressão e provocação.

Não por acaso as três ocorrências têm a impressão digital das agências de segurança dos Estados Unidos: as “agitações” de rua organizadas pelas “indústrias de revolução”; os atentados realizados pelos terroristas financiados; e a repetição do falso argumento das “armas químicas”, antes utilizada no Iraque, no caso do bombardeio.

A resposta da Rússia ao bombardeio, como era de se esperar, reafirmou a inexistência de armas químicas na Síria, manifestou apoio ao regime de Bashar Assad e, principalmente, anunciou de bate-pronto o reforço da defesa do espaço aéreo sírio. Também deixou claro para o mundo que quem ganhou com o bombardeio foram as organizações terroristas que, não por acaso, trataram de promover logo a seguir um atentado em Estocolmo, na Suécia.

A posição da China, outro player chave, foi a de sempre, pedindo solução política para o conflito. Assim, de certa forma desestimulando um possível “sinal” dos EUA de que cumprirão o papel de “polícia mundial”, em especial na península da Coreia (a do Norte pode ser o próximo alvo) e na área do mar do Sul da China. Estranhamente, o bombardeio foi comunicado por Donald Trump ao presidente Xi Jinping apenas ao final de jantar oferecido ao premier chinês.

O embate interno nos Estados Unidos, portanto, continua, agora dentro do governo, com Donald Trump ameaçado de impeachment, pressionado pelo Pentágono e cobrado pelas bases sociais e econômicas que o elegeram.

Em meio ao tiroteio,  Donald Trump obteve uma vitória no terreno parlamentar e judicial com a nomeação de Neil Gorsuch para a Suprema Corte, após confirmação do Senado.

A submissão, ou capitulação à continuidade dessa política neoliberal, sob comando do sistema financeiro internacional e da indústria bélica, aprofundará ainda mais a recessão nos Estados Unidos e no mundo, corroendo suas bases e a imagem mundial.

Ameaçar o mundo, portanto, para tentar safar-se da pressão interna, com um desproporcional e dispendioso ataque aéreo, foi uma medida irresponsável e de alto risco e, se levada adiante, pode produzir um nível de confronto sem retorno no plano internacional.

É disso que se trata.

O risco de uma confronto mundial iminente voltou a tornar-se uma possibilidade real.

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