O feminismo e a linguagem de guerra

Dinah Lemos – Interessante o vídeo do ator americano famoso denunciando as cenas como a que a figurinista no caso do José Mayer denunciou. Assisti na TL de uma feminista e sei que várias feministas e feministos vão compartilhar.

Pois é… fico pensando no que estamos vivendo: temos uma desregulamentação sendo imposta por meio de uma guerra mundial. Essa guerra acontece de várias maneiras, dependendo do país, mas no geral estamos em um mundo absurdamente violento no terreno dos símbolos, da linguagem, dos ordenamentos, com violências diretas em lugares restritos ou definidos, como os países em guerra convencional, os presídios, as periferias com tiroteios e ocupações policiais, as regiões de morte por fome ou subnutrição endêmica ou epidêmica, como na África e no nordeste do Brasil, as indústrias que adotam abertamente o escravismo pós-moderno, o desemprego já estrutural e não mais sazonal.

Nesse cenário, esse feminismo – tão assumido por financiamentos de empresas de produção de imagens como Hollywood – propõe algo que Foucault analisou como sendo uma estrutura PANÓPTICA, ou seja, a construção da visibilidade e do controle de TODOS os comportamentos em sociedade, inclusive o comportamento cotidiano sexual de cada indivíduo. Ele aumenta a demanda por câmaras escondidas, filmagens de celulares, falta de confiança generalizada. É o que esse vídeo propõe.

Mas veja, isso, essa proposta de ‘conseguir ver o agressor disfarçado de normalidade” ela não equaciona o conjunto do problema das dinâmicas violentas, que nascem na produção de poderes de gerenciamento em última instância do CAPITAL. E essas dinâmicas, historicamente, produzem atitudes paranoicas e relações perversas.

Então, a busca de controle social INDIVIDUAL, caso a caso, a partir do SUBALTERNO, no quadro de introdução das desregulamentações pode provocar uma espécie de reversão do efeito, onde o subalterno vê violência e entende que não pode denunciar, pois perderá o emprego, ou perderá o marido que sustenta, ou perderá o pai que sustenta, ou o professor que permite a presença na escola.

Não é possível uma reação isolada de uma pessoa subalterna e violada em um cenário de reintrodução do escravismo.

Então esses vídeos e essas campanhas servem para constatar a loucura se generalizando e o medo se impondo.

Eles não dizem: Ei! Lute contra o capital e as terceirizações! Ele diz: tenha medo de tudo, do médico, do pai, do irmão, do colega, do professor. E as feministas modernas apoiando, legitimando.

Isso é engenharia de linguagem produzida para a guerra. Ela produz o fogo amigo.

Estou lendo a Simone de Beauvoir e nela eu encontro qual é o lugar da luta feminista.

Sempre foi um lugar de negociações porque é um combate contra um inimigo que não se quer destruir.

Como vc faz para enfrentar o marido? O filho que prefere a conduta do pai do qual vc se divorciou justamente porque ele era machista? Como vc enfrenta a filha que foi tragada pela cena de uma juventude que acha a esquerda neurótica, e ela, sua filha, acha que vc “não soube lidar com diplomacia para ser uma vencedora”? Como vc faz para enfrentar uma luta viceral e não querer destruir o inimigo?

Isso é feminismo e isso é de uma dramaticidade impressionante, porque as feministas quase sempre só encontravam paz de espírito na solidão, até o início da revolução da informática e dessa torção do capitalismo.

Aí surgiu esse feminismo de grande alcance de mídia, esse feminismo que enfrenta protótipos de opressores apresentados em reality shows, em propagandas caras, em vídeos elaborados e caros, em grandes campanhas. Esse feminismo apresenta PROTÓTIPOS de opressores e ele sugere que a mulher não faça com eles nenhuma conciliação.

Nunca o feminismo anterior a esse pode existir sem conciliar pois a luta era contra AMIGOS, MARIDOS E FILHOS. Agora, esse feminismo de Hollywood luta contra um ESTRANHO, um MATÁVEL E EXTERMINÁVEL inimigo.

Na vida real, seguiremos fazendo conciliações diárias, nós as antigas, mas essas meninas novas irão escolher entre dois caminhos: ou vão parar de ser feministas, ou vão parar de se relacionar com homens ainda filhos de ainda homens do século vinte e que ainda são machistas. Esses homens ainda machistas vão buscar mulheres submissas para evitar esse linchamento.

A equação “eles não prestam” vai impulsionar um machismo renovado e esse machismo tende a ficar dentro dos campos de concentração de novos-escravos, os matáveis trabalhadores em terceirizadas, ou dentro de feudos de ricos bolsonaros, uma fração da elite que vai reeditar o patriarcalismo mais devastador.

Só o feminismo conciliador consegue levar o homem junto em direção a um novo mundo na perspectiva socialista.

#videnciasinexatas

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