Esta terra tem dono!

Giovanni Vincenzo di San Felice V, Conde de Bagnolo – O tenente Matthew Fontaine Maury, Superintendente dos Serviços Hidrográficos da Marinha dos EUA e astrônomo do Observatório de Washington, ao retornar de sua expedição amazônica, em 1849, passou a defender a tese que a Bacia Amazônica era uma projeção natural do Sul dos EUA, e que cabia a esse país a tarefa de “revolucionar, republicanizar e anglosaxonizar aquele vale, constituindo a República Amazônica, para onde os Estados Unidos transplantariam parte de sua população negra”.

A exigência feita ao Brasil foi de abrir a navegação do Amazonas para potências estrangeiras. Maury, que assinava seus artigos com o pseudônimo de “Inca” no Brasil e em países da América do Sul, publica em 1853 “O Amazonas e as Costas Atlânticas da América Meridional”, onde desenvolve suas teses. Sulista, participa da Guerra da Secessão pelos Confederados, via no território brasileiro a solução para os escravagistas do Sul.

Maury patrocinou “lobby” junto aos congressistas americanos, organizou seminários e conferências com a participação de acadêmicos, jornalistas e empresários e apoiou a criação de uma empresa norte-americana para a navegação no Amazonas. Em 1851, envia sem a permissão do governo brasileiro seu primo o tenente Willian Lewis Herndon e seu subordinado no Observatório Nacional, tenente Lardner Gibbon, para explorar o Amazonas.

O relatório da viagem de 1851/52, “Exploration of the Amazon Made Under Direction of the Navy Department” foi submetido a aprovação do Congresso pelo Presidente Millard Fillmore, em 1853, e publicado em 1854. A campanha por ele capitaneada tem como consequência a transformação de suas teses em política de governo e a nomeação de Willian Trousdale, em 1853, como embaixador no Brasil com instruções do Departamento de Estado de “assegurar as cidadãos dos Estados Unidos o livre uso do rio Amazonas”.

Ao se defrontar com a insidiosa campanha, Paulino José Soares de Sousa, Visconde do Uruguai, com honras de grandeza, agora como Conselheiro de Estado, submete seu parecer em 17 de janeiro de 1854, sobre a navegação do Rio Amazonas. Neste parecer, Paulino estuda as doutrinas dos escritores de Direito das Gentes, sobre a navegação dos rios; faz o histórico da questão e de outros casos semelhantes, como o do Mississipi e São Lourenço; refere-se à política que, em 1851, pretenderá estabelecer com as missões Duarte da Ponte Ribeiro e Miguel Maria Lisboa, e aponta os motivos que levaram sempre as principais potências a decidir questões como a do Amazonas, de acordo com os seus interesses, num parágrafo com o sugestivo título de “Contradições. Diverso modo de proceder na mesma questão.

Antes, ainda como Ministro das Relações Exteriores, trata do problema com Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, em meados de 1852. A missão que Paulino propõe a Irineu é a criação de uma empresa de navegação pelo Rio Amazonas. E assim o fez Mauá, cuja proximidade com o negócio de navegação devia-se ao fato de ser fabricante de navios na Ponta da Areia em Niterói. Tarefa hercúlea, pois nesta época Belém não passava de 15.000 Habitantes, e dai  rio acima até Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, uma distância de 3.500 km, não havia mais que uma dúzia de aldeamentos perdidos, nenhum dos quais com mais de 1000 moradores. Rio Negro, atual Manaus, com pouco mais que 500 casas foi feita capital da província do Amazonas, desmembramento da província do Pará, em 1850.

Mauá é instado a fazer a primeira linha de navegação para entrar em operação no primeiro dia da 1853. Como resultado das tratativas, teve que comprar o primeiro navio da empresa, pois não havia tempo para construir um e despachá-lo às pressas para Belém, mesmo antes de montar a companhia. A previdência e a ousadia de Paulino e o espirito prático de Irineu foram determinantes para garantir nossa soberania. A verdade é que abrir a navegação do Amazonas naquele momento, como exigiam os EUA, significaria desistir do território.

A cobiça pelo Amazonas, por parte dos EUA, não constituia novidade. Em 1826, José Silvestre Rabello, primeiro representante diplomático do Brasil em Washington, aparentemente por iniciativa própria, vende os direitos de navegação do Amazonas a negocistas de Wall Street, que criam a sociedade de Nova York para a navegação de barcos a vapor na América Meridional. Estes enviam um navio que não passa de Belém, estancado por José Felix Pereira Burgos, presidente da Província do Pará.

No pós guerra, em outra ofensiva de envergadura, a ONU, através da UNESCO, propõe a internacionalização da Amazônia,”para os efeitos do Convênio, a Amazônia não abrange apenas os Estados do Amazonas e do Pará, como à primeira vista poderia parecer, mas também parte do Maranhão, Mato Grosso e Goiás, por terem, no dizer dos técnicos da Unesco, a mesma constituição biológica”, alertava Artur Bernardes. A firme oposição da nacionalidade fez com que a proposta do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica fosse sepultada nos escaninhos do Congresso Nacional.

Utilizando outros argumentos para apoderar-se de nosso território, agora sob a tese de proteção ao meio ambiente, não podemos esquecer, as palavras de Al Gore: “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós”.

No apagar das luzes de seu mandato, Barack Obama anuncia a construção de uma base militar na Amazônia Peruana, com a alegação de proteção contra desastres naturais. O governo peruano do presidente Pedro Pablo Kuczynski, o US Southern Command e a empresa Partenon Contractors EIRL, assinaram o projeto de instalação de uma nova base militar, no valor de 1,35 bilhões de dólares, denominada Centro Regional de Operações de Emergência (COER) do Amazonas, com as obras iniciadas em 29 de dezembro de 2016 e com término previsto para meados de 2018.

De acordo com o governo peruano, a base militar dos EUA terá um heliporto de 625 metros quadrados; um prédio de dois andares, o primeiro dos quais será um armazém de ajuda humanitária de 1.000 metros quadrados, enquanto que no segundo o COER trabalhará em conjunto com os módulos operacionais (logística, comunicação, monitoramento, análise, etc.). Ele também irá incluir uma sala de reuniões, uma sala de mídia, quartos e um estacionamento de 800 metros quadrados.

Causou, portanto, perplexidade e revolta a insólita operação conjunta, no âmbito da OEA, com a participação do Exército Sul dos EUA, em Tabatinga, a ser realizada em novembro.

Tal operação carregada de significados, não mereceu ainda a atenção devida da nacionalidade.

Sob a bandeira humanitária de auxílio em catástrofes naturais abre-se nossas fronteiras, para que em nosso território seja efetuado o exercício militar. Afora durante a segunda guerra mundial, com o Brasil e os EUA como aliados contra as forças do Eixo, onde foi compartilhada a base de Natal, nunca em sua história o Brasil permitiu tropas estrangeiras em nosso território, tampouco abriu mão do monopólio das FFAA sobre qualquer ação de defesa.

Nos tempos idos de 1893, o presidente Floriano Peixoto deu a resposta:”Receberemos à bala” – à consulta de cônsules estrangeiros de intervirem no conflito da Revolta da Armada, sem a erudição de Paulino, porém com a firmeza sintética de um soldado. Ou seja, da Pátria cuidamos nós.

Em síntese, a missão de um soldado é defender o território e o povo de seu país. Assim, o exemplo de Floriano atravessou os tempos e definiu a missão suprema de nossas Forças Armadas. Aceitar a interferência de potência estrangeira em nosso solo, é abdicar da mais sagrada de suas missões e humilhar aqueles  que dedicam suas vidas ao Brasil.

Tampouco no trato com nossos vizinhos sul-americanos aceitamos interferência de qualquer país, por mais que tentassem durante a história. Realizar um exercício e camuflá-lo como sendo de iniciativa do Exército Brasileiro é tapar os olhos sobre a implantação da base americana no Peru e uma desmoralização da Forças Armadas.

Acaso não somos capazes de realizar uma missão deste tipo sem o concurso de outros países? Quais serão os desdobramentos posteriores ao evento?.

No momento sombrio porque passa a Nação, acossada por um ataque assimétrico de grande magnitude, onde nosso País defronta-se contra a maior agressão desde a Guerra Brasílica; onde figuras anglosaxonizadas, tão ao gosto de Maury, pululam nas instituições e na imprensa; onde nossa mocidade vê a tentativa de sequestrar-lhe seu futuro; onde os mais humildes sofrem a ameaça de verem voltar os grilhões da escravidão; em que nossas empresas e nossa engenharia estão sendo levadas a bancarrota; tal exercício é um escárnio ao Brasil  e à nossa história.

A este governo que patrocina a ideia desta ação e a submissão aos EUA alertamos: a farda nunca servirá de  menor camuflagem para a covardia e a traição.

Quando esta quadra em que vivemos for suplantada e o Brasil retomar seu destino de grande Nação, muitos brasileiros escreverão seus nomes ao lado dos grandes vultos pátrios, como Felipe Camarão, Vidal de Negreiros, Paulino, Mauá, Caxias, Osório, Floriano, Artur Bernardes, Getúlio, Geisel etc. Mas também haverão aqueles que se igualarão a outro: Calabar.

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